segunda-feira, 18 de junho de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
A arte de culpar os outros
Autor(es): Diogo Schelp
Veja - 14/05/2012
A tentativa de encontrar um bode expiatório paratudo é uma prática que acompanha a humanidadehá milhares de anos — e os estudiosos dizem que podemos nos livrar dela
“ Nada paralisou mais a inteligência do que a buscapor bodes expiatórios”, escreveu o historiador britânico Theodore Zeldin no livro Uma HistóriaÍntima da Humanidade, de 1994. Paralisou, e continua a paralisar. A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada — de desastres naturais aguerras, de crises econômicas a epidemias — nas costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente é uma prática tão disseminada que alguns estudiosos a consideram essencial para entender avida em sociedade. Se observarmos à nossa volta, encontraremos muitos exemplos. Quando um adulto interrompe a briga de duas crianças, uma aponta odedo inquisidor para a outra: “Foi ela quem começou!”. De maneira semelhante, a campanhapara as eleições presidenciais na França, encerradas na semana passada com a vitória do socialistaFrançois Hollande, foi pautada em parte pelas retóricas anti-imigração e anti-União Europeia, como se um fator qualquer vindo de fora fosse o bastante para explicar um problema tão complexo como oalto desemprego no país. Nos Estados Unidos, o culpado da vez é o 1 % mais rico da população, que paga proporcionalmente menos impostos do que aclasse média. Na América Latina, a tradição populistanão existiria sem a invenção de inimigos imaginários internos (as oligarquias, os bancos, a imprensa) e externos (o FMI, os Estados Unidos). A ditaduracubana sustenta-se há mais de quatro décadas sobrea fantasia de que a miséria de sua população se deveao embargo americano à ilha, e não ao fracasso deseu sistema comunista. E o venezuelano Hugo Chávez chegou a levantar a bizarra hipótese, no ano passado, de que os Estados Unidos haviam provocado câncer nele e em outros quatro presidentes da região diagnosticados com a doençaem anos recentes, entre os quais Dilma Rousseff e Lula. Como é possível que explicações irracionais como essas convençam tanta gente, apesar da faltade evidências?
No livro Scapegoat — A History of Blaming Other People (Bode Expiatório — Uma História da Práticade Culpar Outras Pessoas), publicado recentemente nos Estados Unidos e na Inglaterra, o autor, Charlie Campbell, defende a tese de que cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros. “Adão culpou Eva, Eva culpou a serpente, e assim continuamos assiduamente desde então”, escreveu Campbell. Junte-se a isso a necessidadeintrinsecamente humana de tentar encontrar um sentido, uma ordem no caos do mundo, e têm-se os elementos exatos para aceitarmos a primeira e amais simples explicação que aparecer para os malesa nos afligir. Desde muito cedo, provavelmente com o surgimento das primeiras crenças religiosas, ahumanidade desenvolveu rituais para transferir aculpa para pessoas, animais ou objetos como umaforma de purificação e recomeço. A expressão “bodeexpiatório” refere-se a uma passagem do Velho Testamento que descreve o sacrifício de dois ruminantes no Dia da Expiação hebraico. O primeiro bode era sacrificado imediatamente em tributo aDeus, para pagar pelos pecados da comunidade. O segundo era enxotado da aldeia, carregando consigo, simbolicamente, a culpa de todos os moradores. Os gregos antigos tinham o pharmakos, geralmente um escravo ou um marginal, que erabanido para purificar o grupo e assim afastar o que consideravam punições dos deuses — pragas, secas e outros desastres. Alguns pensadores gregos questionaram a tendência de atribuir tudo aos habitantes do Olimpo. O dramaturgo Eurípides (480-406 a.C.) chegou a ponderar que em suas últimas obras as pessoas precisam se confrontar com o mal que emana delas próprias, no lugar de sempre responsabilizar os imortais.
A escolha do bode expiatório costuma obedecer a, pelo menos, um de três requisitos. Primeiro, deve seralguém capaz de substituir sozinho muitas vítimas potenciais. Foi o que ocorreu com Andrés Escobar, zagueiro da seleção colombiana de futebol cujo gol contra na partida com os Estados Unidos eliminou seu time da Copa do Mundo de 1994. Quando voltou à Colômbia, Escobar foi assassinado a tiros, supostamente por apostadores que haviam perdido dinheiro com a derrota. Por maior que tenha sido o erro do jogador, é óbvio que num time com onze integrantes não se pode atribuir a apenas um deles toda a culpa por um resultado ruim. O segundo quesito a ser preenchido por um candidato a bodeexpiatório é ser um alvo facilmente identificável. O ditador alemão Adolf Hitler, um dos mais cruéis inventores de bodes expiatórios de todos os tempos,achava que um verdadeiro líder nacional era aquele que, em vez de dividir a atenção de seu povo, tratavade canalizá-la contra um grande inimigo. Após séculos de antissemitismo na Europa, não foi difícil para os nazistas transformar os judeus — que naIdade Média chegaram a ser culpados até peloalastramento da peste negra — em suas vítimas preferenciais, atribuindo a eles a responsabilidadepor uma série de malfeitorias, entre as quais a deserem os causadores e beneficiários da crise econômica que assolava a Alemanha. A expiação coletiva imposta pelos nazistas resultou na morte de6 milhões de judeus.
O terceiro critério para encontrar um bom culpado é suspeitar de qualquer pessoa que tente defender ainocência de um bode expiatório. Na caça às bruxas da Idade Média, que resultou no julgamento e naexecução de dezenas de milhares de mulheres, funcionava assim. Os métodos para identificar uma"noiva do demônio” eram absurdos. Um deles consistia em jogar a acusada num rio com as mãos e os pés atados; se ela boiasse, era culpada, seafundasse, era inocente, mas aí já estaria morta. Nessas condições, poucos testemunhavam em favor das supostas bruxas, com medo de serem enviados juntos para a fogueira. Essa regra também é atávicados estados totalitários, que, por princípio, não podem assumir as próprias falhas sob o risco deperderem a legitimidade, e por isso precisam dealguém para expiar suas culpas. Do soviético Josef Stalin a Hugo Chávez, tiranos e tiranetes usaram e usam a máxima de que quem nega uma conspiração é pane dela. A injustiça sofrida no fim do século XIX pelo oficial do Exército francês Alfred Dreyfus preenche os três requisitos acima. Dreyfus, oriundode uma rica família judia, foi condenado por espionagem, submetido a um humilhante rito dedesonra militar e enviado para uma solitária em uma colônia penal no Caribe. Anos depois, por iniciativa de colegas e de intelectuais como Émile Zola, provou-se que Dreyfus era inocente, mas nem por isso ele foi libertado. Seus apoiadores foram perseguidos, e Zola refugiou-se na Inglaterra. Dreyfusacabou anistiado, mas sua inocência nunca foiadmitida oficialmente. "Ao longo da história, apenas em circunstâncias excepcionais os governantes foram capazes de admitir sua culpabilidade”, escreve Campbell no livro Scapegoat. Nesse sentido, um exemplo de retidão moral foi demonstrado pelo general americano Dwight Eisenhower, que diasantes da invasão da Normandia, momento decisivo da II Guerra Mundial, em 1944, deixou preparado um discurso em que assumia toda aresponsabilidade se a operação fracassasse. Ele não precisou usá-lo e, em 1952, foi eleito presidente dos Estados Unidos.
O estudo mais profundo sobre a função do bodeexpiatório na sociedade é do francês Rene" Girard, cujo livro mais conhecido é A Violência e o Sagrado. Girard é autor da teoria do desejo mimético, segundoa qual ninguém almeja algo porque precisa, mas porque aquilo também é desejado por outra pessoa.A vida em sociedade consiste na multiplicação dessaequação, e a dificuldade de conciliar os desejos detodos cria tensões e violência. Para que a ordem social não imploda em atos de vingança, existem os rituais de sacrifício, em que os impulsos destrutivos são canalizados para um bode expiatório. No mundo moderno, os sacrifícios com derramamento desangue deram lugar a rituais mais sutis de expiação,auxiliados por tecnologias como a internet. "O fenômeno mimético pode se propagar com muito mais rapidez e intensidade em multidões abstratas do que em multidões concentradas em um mesmo espaço físico. Eis uma maneira muito eficiente e rápida de destruir a reputação de uma pessoa”, diz o francês Jean- Pierre Dupuy, professor daUniversidade Stanford, nos Estados Unidos, e diretorde pesquisas do instituto Imitatio, fundado por Peter Thiel. um dos dez maiores acionistas do Facebook. Thiel, vejam só, foi aluno de Girard. Mas a internet é só um instrumento para os novos rituais de sacrifício, e a humanidade não está presa a esse mecanismoarcaico. Segundo René Girard, no momento em que o ser humano se conscientiza de que o bode expiatório nada mais é que uma vítima inocente, seu sacrifíciodeixa de fazer sentido. Não precisamos de bodes expiatórios.
Fonte: clippingmg
O sistema não é feito para dar certo
Imagine que você trabalha em uma empresa em que os funcionários não ganham de acordo com sua competência, mas sim segundo seu tempo de casa e nível de estudo. Não há promoções, mas também só há demissão em casos de violação grotesca. Mesmo faltando repetidamente ao serviço, não alcançando sua meta ano após ano e maltratando seu cliente, você continua no posto até se aposentar. Imagine que não exista, em sua região, universidade que prepare bem para o seu emprego, de forma que você já chega ao trabalho não sabendo muito. Pior: tem gente que trabalha em área diferente daquela em que foi formada; o cara de vendas se formou em letras. Imagine que essa empresa só tenha dois cargos (funcionário e chefe) e que quase metade dos chefes tenha chegado ao cargo por indicação de um conhecido dos donos (o restante é majoritariamente eleito para a posição pelos funcionários). Imagine que os donos são muitos, que eles não costumam frequentar a empresa e que a herdaram como parte de um conglomerado, do qual a sua empresa é uma das que agregam menos valor aos donos. Imagine agora que o serviço prestado pela sua empresa é complexo e dirigido a crianças e jovens. Imagine também que essas crianças e seus pais não saibam julgar a qualidade do serviço, mas achem que está tudo bem, desde que você o empacote em uma embalagem bonita e dê aos clientes alguns brindes (uns livros, umas roupas, de repente até um laptop aos mais sortudos). A empresa consegue dar todos esses brindes; a maioria dos clientes está, portanto, satisfeita. Imagine que os clientes e seus familiares não precisem pagar diretamente pelo serviço: o pagamento vem da empresa-mãe (a que congrega todos os negócios do grupo) e é baseado na compra de outros produtos e serviços oferecidos por outras empresas do grupo.
Agora pense nesse ambiente de trabalho e responda às seguintes perguntas. Se você trabalhasse nele, estaria motivado a dar o seu melhor ou pegaria leve, esperando o contracheque no fim do mês? Como você acha que seus outros colegas de empresa se comportariam? Se lhe dessem um aumento salarial, você se esforçaria mais? Se você fosse uma pessoa carreirista, permaneceria nessa empresa? Aliás, você teria entrado nela? No caso dos chefes indicados pelos amigos dos donos, você acha que eles estariam mais preocupados em agradar aos clientes ou aos donos e seus amigos? No caso dos chefes eleitos por você e seus colegas, acha que eles comprariam briga com você para defender os interesses dos clientes ou virariam seus aliados? Presumindo que os clientes permanecessem satisfeitos e que continuassem pagando indiretamente pelo serviço, você acha que os donos se interessariam em reformar a empresa para que ela servisse melhor sua clientela, desse mais resultados? Ou será que suas prioridades seriam manter a coisa no estado em que se encontra e devotar suas energias para os outros braços do conglomerado, os que dão mais retorno?
Não sei qual o grau de sua fé na humanidade nem suas crenças na natureza humana, mas eu tendo a achar que a empresa acima seria uma balbúrdia, com profissionais desmotivados e trabalhando abaixo de sua capacidade, clientes mal atendidos, conchavos entre funcionários e chefes, donos desinteressados e pouco envolvidos. Eu acho que melhorar o salário dos funcionários não mudaria o problema. Vou além: enquanto essa estrutura de incentivos não fosse alterada, qualquer investimento numa empresa assim seria um desperdício de tempo e dinheiro. Aliás, não é uma opinião, até porque esse cenário não é hipotético nem trata de empresas. O quadro descrito retrata a maioria das escolas públicas brasileiras. Os funcionários são os professores, os chefes são os diretores de escola, os donos são a classe política, os clientes são os alunos. O resto não carece de alterações para chegar à realidade.
Aposto que você sabe que nossa educação é péssima e que esse problema é fatal para nossas possibilidades de desenvolvimento. Aposto também que você acha que esse problema não o afeta, especialmente se você põe seu filho em escola particular. Aposto que gasta mais tempo na seção de esportes do seu jornal do que naquela que cuida de educação. Se é que o seu jornal tem uma seção devotada ao assunto, já que 90% da cobertura do tema se limita a notícias sobre greves, ameaças de greve e outras reclamações salariais. E, até porque o assunto é apenas esse — dinheiro —, você acha (acha não: você tem certeza, depois de vinte ou trinta anos de leituras sobre o assunto) que o principal problema da educação brasileira é o salário dos professores. Aposto também que, dois parágrafos antes, você respondeu que aumentar o salário dos funcionários não resolveria nada, e aposto também que você gosta dos brindes (se você for mais pobre, merenda; se mais rico, lousa eletrônica ou currículo bilíngue) que a escola do seu filho dá.
Antes que os patrulheiros se arvorem, não estou querendo comparar a escola a uma empresa. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Apenas propus um exercício mental. O que espero que esse exercício tenha deixado claro é o seguinte: não é que a educação brasileira fracassa misteriosamente apesar dos melhores esforços de todos os envolvidos. Ela fracassa porque esse arranjo institucional requer a irracionalidade de todos os envolvidos, do prefeito ao professor. Nossa escola não é feita para dar certo — se por "dar certo" entendermos a formação de uma pessoa com as habilidades mínimas para navegar o mundo e desenvolver seu potencial.
Washington Alves/AEO professor apaixonado - supera deficiências
O professor apaixonado - supera deficiências
Não faz sentido para um professor brasileiro comprar a briga: com má formação, precisaria de um esforço hercúleo para obter grandes resultados. Mas esses resultados não lhe trariam reconhecimento, promoções, prêmios ou aumentos. Não faz sentido para o aluno brasileiro se esforçar: a aula que ele recebe é extremamente chata, a maioria dos professores não está muito preocupada com o seu aprendizado, e ele sabe que, se fizer um esforço mínimo, vai continuar sendo aprovado, mesmo sem aprender bulhufas. Não faz sentido para o diretor de escola se insurgir contra essa situação e querer mudar radicalmente o status quo. Se a sua nomeação depende de eleição dos professores, ele não vai querer exigir de seus eleitores mais trabalho e dedicação, até por não ter nada a lhes oferecer em troca. Se o diretor tiver indicação política, então, Deus o livre de qualquer incômodo: o importante é dar vida fácil a todos, carregar nos "brindes" e deixar os eleitores do seu padrinho político felizes. Não faz sentido para os pais dos alunos protestar contra o atual estado de coisas, porque a maioria deles está satisfeita com a educação que o filho recebe (em pesquisa recente do Inep, a nota média dada pelos pais de alunos da escola pública à qualidade da educação do filho foi 8,6!). E a maioria está satisfeita porque não tem condições intelectuais de avaliar o que é uma boa educação, pois é semiletrada, e nem sabe que existem avaliações oficiais sobre a qualidade do ensino do filho. Finalmente, não faz sentido para o político trabalhar para melhorar a qualidade do ensino: não há pressão por parte de alunos nem de seus pais, e há uma enorme resistência a qualquer mudança por parte dos sindicatos de professores e funcionários. Politicamente, só há custos, sem benefícios. Nenhum político racional mexe nesse vespeiro.
Há, é claro, as exceções. O professor apaixonado pelo que faz, que dá duro independentemente do salário, da carreira desanimadora, dos alunos desmotivados e dos colegas que o pressionam para se aquietar. O diretor comprometido, que se orgulha de fazer uma grande escola e seleciona profissionais que comprem essa batalha. Os alunos e seus pais que querem melhorar de vida e sabem que precisam de educação de qualidade, que lutam contra a pasmaceira. E os políticos comprometidos com a próxima geração, e não com a próxima eleição. Mas esses são minoria, e o sistema está contra eles. Enquanto a lógica do sistema não for alterada, todas as ações pontuais para melhorá-lo — da lousa eletrônica ao salário mais alto — provavelmente irão para o ralo. Acredito que o quadro só mudará quando a população passar a ver a educação brasileira como ela realmente é. Somente aí poderemos esperar a pressão popular por uma educação de qualidade, que gerará incentivo para que políticos cobrem desempenho dos funcionários do sistema. Ou seja, o problema é seu. Está esperando o que para fazer alguma coisa?
Fonte: Revista Veja
QUEM QUER CONSEGUE
A história de um grupo de municípios brasileiros, revelado em um novo ranking, mostra que é preciso aliar medidas simples à disciplina para distanciar-se da mediocridade
A última grande radiografia do Ensino público brasileiro reforça o abismo que nos separa dos melhores do mundo na sala de aula. Enquanto nos países mais desenvolvidos 57% dos estudantes do Ensino fundamental detêm o conhecimento esperado para sua série, ou vão muito além disso, no Brasil é ainda maior do que essa fatia a dos que não sabem o mais básico – 77%. Diante de tamanha desvantagem, é bem-vindo o exemplo de um pequeno e pouco conhecido conjunto de municípios que emerge do lamaçal de notas vermelhas em meio à mesma coleção de dados, extraídos da Prova Brasil, do Ministério da Educação (MEC). Ainda que com uma longa estrada a percorrer até alcançar os mais ricos, são esses que, no Brasil, concentram a maior porção de Alunos situados em nível ao menos “adequado” para o ano que estão cursando. O novo levantamento, conduzido pela ONG Todos pela Educação, surpreende à primeira vista. Afinal, os dez municípios no topo do ranking têm erguido as bases para a boa Educação em condições muito semelhantes às dos demais, ou até piores que as deles. Seu sucesso ajuda a decifrar os caminhos que conduzem à excelência.
Um fato chama atenção no rol dos dez melhores municípios da lista: sete são mineiros, incluindo os cinco que lideram o ranking. O resultado enfatiza o que outras avaliações do MEC vêm sinalizando nos últimos anos. Analisa o economista Cláudio de Moura Castro, especialista em Educação e articulista de VEJA: “Essas cidades não estão fazendo nada de mirabolante, mas sim levando a cabo um conjunto de iniciativas coerentes que têm tido continuidade, algo raro no país”. Elas foram postas de pé na década de 90 e agora começam a se refletir nos números. Minas Gerais foi o primeiro estado a formular uma prova única para mapear as deficiências dos Alunos e lançar luz sobre os bons casos, saindo na dianteira na criação de metas para a sala de aula. As Escolas passaram então a ser cobradas e até premiadas por seu cumprimento, tal como no mundo corporativo, com um bônus salarial para os profissionais que elevam o nível do Ensino. O sistema é hoje adotado em cerca de 20% das 180000 Escolas públicas brasileiras.
O campeão da lista da Todos pela Educação é São Tiago, município de 10000 habitantes a duas horas de carro de Belo Horizonte. Ali, vive-se basicamente do plantio de café e da fabricação de biscoitos. Na Escola estadual Afonso Pena Júnior, que atende 1100 Alunos, os Professores chegam a dar aulas extras (sem ganhar nada a mais por isso) em prol da média nos exames oficiais. Por estes, sim, podem ser recompensados. Um grupo de estudantes do colégio venceu um campeonato nacional de robótica e, não cabendo em si, está prestes a embarcar para o México para defender o Brasil no circuito mundial. Na aula de química, eles desenvolveram um projeto de extração de álcool da laranja por meio de fermentação, experiência que interessou à Universidade de São Paulo (USP). Tanto que uma turma de São Tiago, muitos dos Alunos vindos de famílias pobres que jamais haviam deixado o estado, foi convidada para falar sobre o trabalho em São Paulo. “O objetivo aqui é ir muito além dos muros da Escola”, diz a diretora Maria Auxiliadora Silva, 47 anos, há dez no cargo.
O que afinal une os colégios dos municípios em destaque é a junção de medidas já testadas em outros países com um lado pragmático que se sobrepõe ao corporativismo ainda em voga no ambiente Escolar. Dados da Prova Brasil mostram que, até hoje, são minoria os diretores de Escola que chegam ao cargo por um sistema que alie quesitos técnicos a uma eleição, e não por critérios políticos: eles representam apenas 13% do total – em Minas, são 60%. Outro ponto que aproxima os municípios campeões é a existência de um currículo único para a sala de aula, item que começa a se disseminar no Brasil, embora sofra certa resistência daqueles mestres que não querem ver-se tolhidos em sua “liberdade de ensinar”, um discurso meramente ideológico. “Faz uma enorme diferença quando o Professor tem um roteiro mínimo sobre o que e como ensinar”, diz o doutor em estatística José Francisco Soares, especialista em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. O ranking também espelha um claro esforço por parte das Escolas que figuram no topo para manter seus Docentes atualizados. “Na década passada, o nível dos Professores aqui era muito baixo, mas já melhorou e precisa seguir avançando”, reconhece Maria Aparecida Macedo, secretária de Educação de Itaú de Minas, a 360 quilômetros da capital, uma das campeãs.
A ONG Todos pela Educação estabeleceu uma meta ambiciosa para os 5 500 municípios brasileiros. Até 2022, todos devem alcançar o atual patamar da OCDE. “O Brasil já tem um bom plano, mas ainda falta provê-lo de incentivos certos para que saia do papel”, diz a diretora executiva da ONG, Priscila Cruz. Os últimos dados sobre a Escolaridade das famílias da atual geração de estudantes brasileiros mostram que 58% não chegaram sequer ao Ensino médio – e sinalizam para a necessidade de acelerar o passo para ombrear com os países mais desenvolvidos. O raro entusiasmo pelos estudos despertado em Alunos como Higor Bartolomeu, 15 anos, morador da mineira Guaxupé, outra das campeãs, revela que, com empenho máximo, pode dar certo. Diz o menino, que oscila entre o trabalho na lavoura e o esmero para gabaritar as provas de matemática, que adora: “Não aceito menos do que a nota 10”.
Excelência à mineira
Um novo ranking feito pela ONG Todos pela Educação destaca os municípios brasileiros que, embora com resultados ainda distantes dos de países mais avançados na sala de aula, concentram o maior número de alunos com conhecimento adequado ou até superior ao esperado para a série que cursam
(Porcentual dos estudantes que atingem ou extrapolam as metas)
1º São Tiago (MG) 49%
2º Guaxupé (MG) 48%
- Itaú de Minas (MG) 48%
4º Monte Santo de Minas (MG) 46%
5º Capelinha (MG) 43%
- Amambaí (MS) 43%
7º Elói Mendes (MG) 41%
- João Monlevade (MG) 41%
- Novo Horizonte (SP) 41%
- Vargem Alta (ES) 39%
Média dos municípios brasileiros: 23%
Média dos países da OCDE 57%
Fontes: dados da Prova Brasil, do MEC, relativos ao resultado do 9º ano do ensino fundamental em língua portuguesa, e Pisa 2009
Uma receita campeã
O que explica o alto nível de ensino nos municípios que encabeçam a lista do Todos pela educação
- Diretores selecionados por critérios técnicos
- Incentivo financeiro aos professores com melhores resultados
- Cursos constantes para a atualização dos mestres
- Currículo único e bem organizado
- Valorização da leitura
- Participação dos alunos em competições nacionais em todas as disciplinas
- Iniciativas para atrair a família à escola
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Fonte: Revista Veja
domingo, 20 de maio de 2012
'Você é nosso e nós somos teu', por Mary Zaidan
Português abaixo da crítica, conteúdo mais baixo ainda. Assim pode ser definida a mensagem do deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) ao governador Sérgio Cabral, flagrado pelas câmaras do SBT durante reunião da CPI mista que deveria investigar as estripulias do contraventor Carlos Cachoeira. "A relação com o PMDB vai azedar. Mas não se preocupe. Você é nosso e nós somos teu.”
Embora não tenha revelado nada de novo, Vacarezza deu um azar danado.
Nos 83 toques em que confessa amor eterno ao governador do Rio, o ex-líder do governo na Câmara expôs com todas as letras o que muitos estão cansados de saber, mas jamais revelariam: a blindagem total aos que interessam – governo, PT e aliados amigos - em uma CPI patrocinada pela maioria, talvez a única na história.
Coisa que só a onipotência do ex-presidente Lula poderia conceber.
Precedida ou seguida de um “Por que? O que houve?” do preocupado interlocutor – algo a que poucos deram atenção -, o torpedo de Vacarezza ganha potencial explosivo. Pode significar muito mais do que a óbvia proteção aos cupinchas. Deixa claro que de sério a CPI tem pouco ou quase nada. Coisa para a plateia ver.
Mas o que será que tanto apoquenta Cabral? Se, como diz, não aparece em gravação alguma, não precisaria de proteção adicional. Muito menos de informações online, no auge do debate, sobre o quadro de convocações da CPI.
Os guardanapos dos seus lhe perturbam a cabeça? Teme novas fotos? Novas revelações?
Os motivos que levariam líderes de primeira grandeza do PT a se indispor abertamente com o PMDB, maior aliado e detentor da vice-presidência da República, são ainda mais inexplicáveis. Só mesmo encrencas das grandes valeriam tal preço.
Questões se amontoam às dezenas. Poucas serão respondidas a se medir pela primeira lista de convocações da CPI, todas para ouvir o que a Policia Federal já cansou de ouvir.
Uma comissão que se faz de inútil. Que, por escolha e gosto, desconsidera descalabros atrás de descalabros sob o argumento de que não se enquadram no escopo das investigações.
Imaginam, também por escolha e gosto, que investigações têm limites controláveis, esquecendo-se que a CPI mais devastadora já realizada no país começou com um alvo, o pagamento de propina nos Correios, e achou outro muito mais gigantesco, o mensalão.
Por essas e outras, é melhor proteger uns e outros, mandar torpedos e SMS – já que ligações telefônicas são perigosas demais – e tentar não dar sorte para o azar. Para quem deve e teme, não é um risco que dê para correr.
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan
Fonte: Blog do Noblat
sábado, 19 de maio de 2012
PT X Imprensa
A primeira, com o PT ainda na oposição, foi a de se ter transformado em espetáculo político e palanque eleitoral.
O PT, como se recorda, por qualquer razão – ou mesmo sem nenhuma -, propunha que se instalasse uma CPI. Lula chegou a declarar: “Quanto mais CPIs, melhor”.
E assim o partido firmou imagem de perseguidor de corruptos e defensor da moral pública.
Se não houvesse fato concreto – como exige a lei -, tratava-se de providenciá-lo.
Ficou célebre a parceria do partido com alguns procuradores da República, projetando a figura de um deles, Luiz Francisco de Souza, versão cabocla do inquisidor Torquemada, curiosamente ausente desde que o PT chegou ao poder.
A parceria era simples – e descarada: um jornalista aliado registrava algum rumor, envolvendo alguma figura do governo. Não era necessário nem mesmo um vago indício; o rumor servia.
Mediante aquele registro, o procurador abria sindicância, realimentando o noticiário, que, de rumor em rumor, ganhava voo próprio e foros de verdade.
O PT, então, entrava em cena, pedindo uma CPI. Foi assim com o ex-chefe da Casa Civil de FHC, Eduardo Jorge, que teve sua vida pessoal e profissional devassada, sem que o acusassem de um único fato concreto.
A lógica era esta: se não há fatos, pior para os fatos. Era preciso atingir Eduardo Jorge para, por meio dele, quem sabe, encontrar algo de desabonador contra o presidente.
Nesse caso específico, porém, não deu certo: a CPI não saiu e Luiz Francisco foi condenado na Justiça e indenizar sua vítima por danos morais.
No poder, o PT imporia outra mudança: a passeata contra a CPI, invertendo suas relações históricas com aquele instituto. Saía do “quanto mais CPI, melhor” para acusá-la de ser um instrumento para desestabilizar o governo.
Entidades como União Nacional dos Estudantes (UNE) e centrais sindicais, que, ao tempo do PT oposição, engrossavam o coro das CPIs, ocupavam ruas e praças públicas para protestar contra a instalação de uma CPI para investigar a Petrobras.
Não faltavam fatos concretos, denúncias de gente da própria estatal, com documentos e depoimentos. Mas a CPI, mesmo instalada, não deu em nada. O governo a aparelhou, impedindo convocações e investigações.
O mesmo se deu com uma CPI mista (Câmara e Senado) para investigar o MST. Não deu em nada, não obstante a multiplicidade de denúncias documentadas.
Convocações e investigações eram sustadas em nome da estabilidade do governo e das instituições, algo que, como se sabe, o PT sempre defendeu.
Eis que agora surge a CPI do Cachoeira, proposta não pela minoria, mas pela maioria (outra novidade). O objetivo formal é o de investigar as conexões do contraventor Carlos Cachoeira com parlamentares, partidos e outras autoridades do Estado.
Mas o objetivo real era o de sacrificar figuras da oposição, como o senador Demóstenes Torres e o governador goiano Marcone Perillo.
No meio do caminho, no entanto, tinha algumas pedras. As conexões de Cachoeira atingem também o PT, governadores aliados e a empresa Delta, que cresceu à sua sombra, como a imprensa o tem mostrado com abundância.
Muda-se então o foco inicial, e a própria imprensa passa a ser o alvo da CPI.
A mesma imprensa, que o PT municiava em CPIs do passado, com quebras ilegais de sigilo dos acusados, agora é inimiga. Estabelece-se outra inovação: a tutela moral das fontes.
Ora, fonte de informação é prerrogativa constitucional do jornalista. Ele as escolhe e responde pela veracidade das informações. Não importa se as obteve no inferno; importa o que faz com elas, se são verdadeiras e não foram obtidas mediante alguma ilegalidade.
Não sendo assim, o que se configura é algo conhecido: a tentativa de restabelecer a censura a uma instituição sem a qual inexiste a democracia.
O PT julgava que, ao fornecer informações importantes, ao tempo em que era oposição, havia estabelecido uma parceria com a imprensa. Errou: a parceria da imprensa é com a notícia e com os leitores. Não há espaço para mais ninguém.
Ruy Fabiano, jornalista.
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BANDA LARGA ESTREITA
Dizer que a internet rápida engatinha no Brasil é um lugar-comum cada vez mais pertinente.
Deixado para trás nas comparações internacionais de acesso e custo de banda larga, o país agora também aparece mal colocado num ranking sobre velocidade média de tráfego de dados na rede mundial de computadores.
Levantamento de uma empresa americana especializada no setor revelou que a internet brasileira está em 40º lugar, por ordem de velocidade média da banda larga, entre 50 países pesquisados.
Para o Brasil alcançar a Coreia do Sul, líder do ranking, seria preciso multiplicar por dez a velocidade de sua rede. Enquanto a banda larga do país asiático processa, em média, 17,5 Mbps (milhões de unidades de informação -bits- por segundo), a conexão brasileira tem um fluxo médio de 1,8 Mbps. A média mundial é de 2,3 Mbps.
Especialistas concordam quanto a uma das razões para essa discrepância: a rede pública de fibra ótica, administrada pela Telebrás, não dá conta do território brasileiro. Com 21 mil km de extensão, ela atinge 2.083 de 5.564 municípios.
O governo pretende ampliar a rede para 31 mil km e levá-la a 4.283 cidades até 2014. A expectativa é que 40 milhões de domicílios (cerca de 60% do total) tenham internet rápida nos próximos dois anos.
Melhorar a infraestrutura é uma das metas do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), lançado em 2010. O programa inclui ainda acordos com operadoras para que ofereçam pacotes de banda larga a R$ 35, com conexão de 1 Mbps.
A iniciativa é bem-vinda, mas tímida. Nos EUA, onde em 2010 66% dos lares tinham internet rápida, o governo prevê 100 Mbps.
Uma política específica para a banda larga é mais que necessária. A competição no setor é baixa -a empresa dominante em cada Estado tem, em média, 75% do mercado-, o que ajuda a explicar as deficiências do serviço. É crucial ampliar a concorrência, e compete ao governo induzir esse processo.
Recente pesquisa do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), do início deste ano, analisou a atuação das empresas. Sua conclusão foi que elas divulgam os planos populares pouco e mal.
Finalmente, a Lei Geral de Telecomunicações, de 1997, está ultrapassada e precisa ser adaptada à realidade das novas tecnologias.
Regulação eficiente, investimentos e competição privada formam o tripé para acelerar a banda larga. Esse instrumento importante para alavancar a inovação e a produtividade da economia do país merece tratamento prioritário.
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VERTIGEM NA EUROPA
Saída da Grécia da zona do euro, cada vez mais provável, abre novo capítulo de turbulência quanto ao futuro da união monetária
O resultado das eleições gregas foi catastrófico para as perspectivas da receita de austeridade a fim de debelar a crise europeia.
A queda acumulada de 17% no PIB da Grécia desde 2010 e a ausência de um horizonte de melhoria levaram o eleitorado a emitir mensagem clara: está farto das medidas de ajuste e seduzido por partidos extremistas -como se isso representasse solução para as dificuldades criadas em vários anos de indisciplina nos gastos.
A expressiva votação do partido Syriza, adversário do programa de ajuste, inviabilizou a formação de um governo. Haverá novas eleições em junho, que devem se configurar como um plebiscito pela permanência do país na eurozona.
A rejeição aos duros cortes exigidos dificultará desembolsos de dinheiro novo pela Europa, o que levaria à insolvência grega. Sair do euro seria o resultado inevitável.
Os gregos parecem apostar que a Europa mostrará flexibilidade para abrandar o programa. Contam também com o medo dos europeus de que deixar a Grécia à deriva desencadearia uma crise financeira sem precedentes, com ataques do mercado a outros membros cambaleantes, como Portugal e Espanha.
A liderança europeia se vê compelida a lidar com uma agenda de crescimento, que ganhou peso com a eleição do socialista François Hollande na França. O próximo encontro de cúpula, em 29 de junho, debaterá sugestões francesas, como a capitalização do EIB (o BNDES europeu) e a emissão conjunta de títulos de dívida para custear investimentos. São passos importantes, mas insuficientes.
Há obstáculos políticos, em especial na Alemanha, para novas concessões à Grécia. Já se fala abertamente, porém, em salvaguardas para enfrentar sua saída do euro.
Elas implicariam provar de modo inequívoco que não haverá ruptura generalizada com a defecção grega. Os europeus precisarão dar passos mais audazes de integração para convencer os mercados de que a arquitetura incompleta da moeda única evoluirá rapidamente.
Entre as medidas que restaurariam confiança está uma maior velocidade na integração fiscal e na supervisão bancária.
O objetivo é evitar casos como o da Espanha, cujo governo não tem recursos para lidar com a insolvência de suas próprias instituições, drenadas pelo estouro da bolha imobiliária. Discute-se recorrer ainda mais aos fundos de resgate, hoje em 700 bilhões de euros, para socorrer os bancos ibéricos.
Quanto ao Banco Central Europeu, persistem as resistências alemãs ao uso pleno de seu arsenal. Mas, se a saída da Grécia revelar-se inevitável, será a única instituição capaz de evitar o colapso do euro.
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ARGENTINA APRESSA DESMONTE DO MERCOSUL
É lamentável que, numa era de contração da economia mundial, a Argentina embarque numa guerra comercial com o Brasil, principal parceiro no Mercosul. Justo quando as duas maiores economias da América do Sul deveriam estar se energizando mutuamente, até para compensar parcialmente a queda da demanda externa, a Argentina ajuda a desmontar o Mercosul, que já vem há muito em trajetória descendente e nem pode mais ser chamado de bloco comercial, uma vez que caiu nas garras do protecionismo, principalmente argentino.
A questão são os estágios diferentes em que cada país se encontra. O Brasil conseguiu manter, nas últimas décadas, a continuidade de uma política econômica responsável, mesmo com alguns altos e baixos, e com bons fundamentos, capaz de inspirar confiança e de, por isto, atrair investimentos externos. Independentemente do partido no poder. Por sua vez, a economia argentina se mostra submissa à política, que é ciclotímica, mas no geral dominada pelo nacional-populismo de corte peronista. Na prática, isto se traduz numa economia pouco competitiva em que o único destaque vai para o agronegócio. Fica, portanto, na dependência do clima.
Os Kirchner, que tiraram (Néstor) o país do fundo do poço na virada do século, cristalizaram (Cristina) uma política ruinosa, com o país ainda fora do mercado financeiro internacional, como um pária, por conta da moratória selvagem de dezembro de 2001. O estilo dos Kirchner é o ativismo de confronto, que sempre encontra um bode expiatório para esconder os problemas internos. Pode ser um inimigo externo, como a Grã-Bretanha, na recente tentativa de Buenos Aires de reviver a questão das Malvinas. Na área econômica, o alvo pode ser empresas estrangeiras que estariam "explorando as riquezas nacionais", como na também recente decisão de renacionalizar a petrolífera YPF, privatizada no governo Menem, quando foi comprada pela espanhola Repsol. Há ações também contra a Petrobras.
Com a entrada de capital e de investimentos à míngua diante de tantas incoerências, Buenos Aires foi buscar dólares no comércio com o Brasil, passando a adotar medidas protecionistas contra produtos brasileiros. A iniciativa já resultou numa queda de 54% do superávit comercial do Brasil com o vizinho nos quatro primeiros meses do ano.
O Brasil tem sido de uma paciência chinesa na relação bilateral na tentativa de salvar o Mercosul. Mas foi obrigado a reagir na mesma moeda por encontrar receptividade nula a suas gestões. Foi preciso um encontro de quatro horas dos dois chanceleres - Antonio Patriota e Héctor Timerman - para que uma trégua fosse anunciada, juntamente com a retomada das negociações. Mas não sem que o homem forte do governo Cristina Kirchner, o truculento Guillermo Moreno, tenha feito mais uma de suas desrespeitosas intervenções. Quando eram discutidas as quotas impostas pela Argentina à carne suína brasileira, ele disparou: "As duas delegações decidiram que o importante é incrementar o comércio argentino. À medida que isso se manifestar na redução do déficit da Argentina com o Brasil e nos permitir exportar ao Brasil mais medicamentos, uvas-passas, têxteis e cítricos, o problema da carne suína desaparece." Esse tipo de declaração é inaceitável e em nada contribui para a melhora das relações.
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TRANSPARÊNCIA NOS SALÁRIOS
A decisão da presidente Dilma Rousseff de determinar a divulgação completa dos nomes e vencimentos dos servidores federais, como determina a Lei de Acesso à Informação – seguida no Estado pelo governador Tarso Genro – provocou imediata reação por parte de categorias de servidores e tende a se transformar numa guerra entre poderes. Ainda assim, é coerente com essa inovação histórica, que fortalece a transparência e contribui para o aperfeiçoamento da democracia. O contribuinte tem o direito, sim, de saber quanto está pagando pelo trabalho de pessoas que ocupam cargos públicos não apenas no Executivo, mas em todos os poderes de todas as instâncias da federação.
De maneira geral, as justificativas contrárias à medida não se sustentam – nem mesmo a mais repetida. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao avaliar o caso da prefeitura de São Paulo, pioneira na divulgação de ganhos, já decidiu que a publicação atende ao princípio da publicidade sem violar o direito à privacidade. E as demais alegações, como a de risco à segurança pessoal de funcionários públicos, não fazem sentido no caso de pagamentos feitos com dinheiro público.
Em tese, o valor máximo recebido deveria limitar-se a R$ 26,7 mil. Amparado por decisões judiciais, porém, um grupo de servidores se vale da uma série de artifícios para receber além desse valor, nos poderes Legislativo e Judiciário. E é justamente dessas áreas, por razões óbvias, que partem as maiores objeções à iniciativa.
É absolutamente indispensável que, a exemplo do Executivo, todos os demais poderes em todas as instâncias da federação se disponham a tornar públicas as informações relativas à remuneração de seus servidores. Se o salário é fixado por lei e pago com dinheiro público, não há por que haver exceções – e é em relação a elas que a sociedade precisa ficar atenta, municiada por instrumentos inovadores como a Lei de Acesso à Informação.
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