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sábado, 23 de março de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Congresso saiu do armário

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

O congressista bateu no peito e me disse, em alto e bom som:

"Vocês não sabem o que é a mente de um deputado ou senador. Durante muito tempo, fomos criticados como os mais corruptos soldados do atraso nacional, porque os brasileiros vivem angustiados, com sensação de urgência. Problema deles: apressadinhos comem cru. Nosso conceito de tempo é outro. É doce morar lentamente dentro dessas cúpulas redondas, não apenas para 'maracutaias' tão "coisas nossas", mas porque temos o direito de viver nosso mandato com mansidão, pastoreando nossos eleitores, sentindo o 'frisson' dos ternos novos, dos bigodes pintados, das amantes nos contracheques, das imunidades para humilhar garçons e policiais. Detestamos que nos obriguem a 'governar'.

Inventaram as tais 'fichas limpas', nos xingavam de tudo, a ponto de nossa credibilidade ficar realmente abalada. Pensamos muito no que fazer para limpar o nome do Congresso. Mas a pecha de traidores colou em nós. Não podíamos ficar expostos à chacota da opinião pública, nem ser admoestados pelo Supremo Tribunal Federal, que resolveu se meter em política, principalmente depois que aquele negão pernóstico (bons tempos em que chamávamos mulatos cultos de 'pernósticos'), resolveu pegar em nosso pé.

Tivemos então a grande ideia, graças a nosso eterno líder Sarney, de fazer algo impensável! Ele já tentara votar 3.000 MPs em um só dia, lembram? Aquilo nos inspirou e resolvemos então: vamos sair do armário!

Resolvemos assumir o que dizem de nós. Vocês não imaginam o alívio que isso despertou em todos nós. A gente andava cabisbaixo nos corredores, humilhados nas ruas, vaiados em restaurantes, até que veio a ideia genial. A vitória de Renan e Henrique Alves será uma bofetada na cara dos moralistas de direita, essa UDN difusa como bem denunciou nosso companheiro Dirceu. Como foi simples a ideia! Foi oriunda do próprio Renan, e apoiada pelos companheiros peronistas do PT. É isso mesmo, qual é? Não somos santos coisa nenhuma. Somos cobras criadas. Nós somos escolhidos entre os mais espertos dentre os mais rombudos. A estupidez nos fornece uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos puxados. Nós somos fabricados entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões. Nós somos a covardia, a mentira, a ignorância. Nós somos a torta escultura feita de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos. Somos mesmo, e daí?

Para nós, "interesse nacional" não existe. Estamos aqui para lucrar - se não, qual a vantagem da política?

Vocês não imaginam a delícia de sermos chamados de "canalhas", o prazer de se sentir acima da ridícula moralidade de classe média.

O PMDB está de parabéns - assumiu que nossa bandeira eterna é a visão de mundo do Sarney, nosso guia. Vocês viram como ele chorou no dia em que passou a presidência para o Renan? Ele chorou por sua vida de lutas para manter nossa doce paralisia, a cordial tradição de patrimonialistas e oligarcas. Ele não chorou pelo Maranhão, que domina há 60 anos - chorou por si mesmo.

Que alívio! Não lutaremos mais para demonstrar boa conduta. Ao contrário, queremos o descrédito popular para sempre. Assim, esses jornalistas metidos a vestais terão o que merecem, pois o povo vai desistir de nós. Não julgarão mais nossos atos, pois saberão que é inútil. Queremos que o público perca qualquer esperança de mudanças. Queremos a desesperança do povo, queremos uma opinião pública angustiada e enojada de nós. Assim, teremos o sossego da irresponsabilidade total!

E o inesperado poder que isso nos deu? É maravilhoso. Estamos unidos por nossa verdade, como um movimento de minorias, como gays, sei lá. Podemos apoiar e bloquear o Executivo sem hesitar, principalmente porque contamos com o apoio incondicional de nossos companheiros peronistas do PT. Como não pensamos nisso antes?

Por exemplo, outro dia, o companheiro Gilberto Carvalho, da Casa Civil de d. Dilma Rousseff disse:

"Em 2013, o bicho vai pegar!" Que será que ele quis dizer? Vai pegar em quem? E que bicho? A cobra urutu-cruzeiro, o bicho de sete cabeças ou o chupa-cabras? Eu acho que ele deu uma dica de que o bicho vai pegar na liberdade de expressão... Por quê? Porque nos últimos dias, houve indícios de um desejo antigo dos companheiros do PT: o controle da mídia. Isso. Para eles é uma questão 'ideológica', mas, para nós, um feriado luminoso. Imaginem o descanso de Jucá, Lobão Pai e Filho, Renan - que brilhantemente glosou a máxima de que 'fins justificam meios' com a frase imortal: "Ética é um meio, não um fim" ou a bela bravata do Lobinho: "O último que quis ser vestal aqui foi desossado!" (assim como os bois imaginários do Renan e Jucá). Eles querem a imprensa? Nós topamos tudo. Podem levar.

Aliás, houve várias mensagens cifradas do PT.

Em Cuba, o nosso Lula, que foi lá para ver se o Chávez ainda está vivo, declarou na ilha que a imprensa é inimiga do povo, que ele é atacado pelos capitalistas do mal, etc... O Rui Goethe Falcão repetiu a lengalenga. No outro dia, o Dirceu fez um discurso conclamando a 'militância' a lutar contra a direita da imprensa e o heroico ex-jornalista Franklin Martins está se encontrando com a presidente. Se for esse o bicho que vai "pegar", contem conosco. Seria maravilhoso não só para os comunas esse muro de Berlim, mas para nossos malandros da "mão grande", melhor ainda.

A Dilma andou dizendo que nunca permitirá a censura à imprensa... Vamos ver. Ela é brava, mas não vai resistir ao cerco político de seus stalinistas e de nossos puxa-sacos bem treinados, num país onde a oposição se suicidou por burrice e preguiça, o bicho pode mesmo pegar. Estamos às ordens.

Parabéns Renan e Henriquinho, vocês são nossos vingadores.
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Uma Bóia para Lula


Artigo no Alerta Total – alertatotal
Por Jorge Serrão – serrao@alertatotal.net

Um pequeno e próspero empreiteiro de obras, que tem talento para cantor sertanejo e não ingere uma gota de álcool, aproveitou a festa de revellion em um hotel na Costa do Sol para contar causos curiosos de sua vida. Um deles foi a experiência dramática com uma imensa bóia de câmara de ar de trator, durante um fim de semana com amigos de praia. O relato serviria de alegoria sobre a conjuntura político-econômica do Brasil Capimunista, sob gestão da turma da Republiqueta Sindicalista e seus parceiros no Governo do Crime Organizado.

O empreiteiro, que não sabia nadar, sentiu uma aguda dor de barriga. Sua solução imediatista foi pular para o centro da grande bóia, baixar o calção e se aliviar no azul do mar. O incauto poluidor só não imaginava o efeito colateral de sua decisão. A bosta liberada – resultado da liquefação de uma feijoada – veio totalmente à tona. Formou uma ilha dentro da imensa roda. O negócio fedeu mais ainda porque os companheiros do desarranjado resolveram, de repente, tomar o flutuante de assalto. No desespero, diante da conjuntura escatológica, todos jogaram a culpa no cabra. Na prática, pelo vexame passado, a reputação dele quase afundou no mar de sujeira.

Se Luiz Inácio Lula da Silva contasse essa mesma história – eventualmente se passada com ele – seríamos forçados a ficar com pena da vexatória situação dele. Lula é hoje um político que precisa de uma bóia de gigante, para não morrer afogado no oceano de imundices em volta dele e do seu governo que ainda não terminou. A Operação Porto Seguro da Polícia Federal revelou as relações intestinas de Lula com grandes esquemas de corrupção coordenados por sua melhor amiga e apadrinhada Rosemary Nóvoa Noronha, junto com os Irmãos Vieira (que bem poderiam ser personagens da banda maldosa-trapalhona de Walt Disney).

A revista Veja lança novas revelações bostejantes dentro da grande bóia do companheiro de Rose. Informações da agenda da “segunda-dama”, apreendida pela Polícia Federal, vêm à tona com mais fedor que a caganeira relatada no começo deste escatológico artigo. Já ficou confirmado que Rose intermediava pleitos do Banco do Brasil junto ao então Presidente Lula. O ex-vice-presidente do BB, Ricardo Oliveira, confirmou que “Rose levava as demandas instituição do banco para presidente”. Indiciada pelos crimes de formação de quadrilha, tráfico de influência e corrupção passiva, Rose teve 39 reuniões com ocupantes de altos cargos do BB, entre os anos de 2007 e 2010.

Salvo milagrosamente de ligação direta com o Mensalão, será muito difícil dissociar Lula do Rosegate – pela intimidade pública entre ambos. Pouco importa se ela era amante ou não de Lula (como insinuam amigos e inimigos do ex-Presidente). O fato objetivo é que Rose era secretária do gabinete presidencial em São Paulo e assessora de total confiança de Lula – que a apadrinhou na gestão Dilma Rousseff. Rose cuidava de assuntos importantes com Lula. Logo, se ela estava envolvida em maracutaias (como indica o inquérito da Operação Porto Seguro), fica impossível salvar Lula no meio da bóia de corrupção.

Lula não é santo, mas opera milagres. A maior parte da mídia – amestrada pelas verbas de publicidade oficial e por jogos de pressão nos bastidores – vinha silenciando sobre o Rosegate. A Veja voltou a mexer na privada relação de Lula com sua melhor amiga e super-assessora. O negócio continuará fedendo, embora o PT patrocine toda uma ação psicológica para tentar diminuir os danos contra a sagrada imagem de Lula – que continua bem na fita, principalmente entre os desinformados ou deformados pela opinião petralha. Nas redes sociais e entre os segmentos esclarecidos da sociedade brasileira, o filme de Lula está queimado. Na internet, ele é mais que filho do Brasil...

Apesar das denúncias, a blindagem de Lula só cairá se houver agravamento dos problemas na gestão da economia. O timoneiro dele e dos grandes negócios petistas, o ministro Guido Mantega, sofre do mesmo desarranjo intestinal do rapaz da grande bóia. Investidores internacionais (principalmente os contrariados com os prejuízos gerados pelas ordens de Mantega na Petrobrás e na Eletrobrás) cada vez vociferam mais alto contra o Ministro da Fazenda que já está na roça (como se diz na gíria caipira). Atirar em Mantega significa atingir Lula mortalmente. O tiroteio tende a se intensificar nos próximos dias.

O cagaço é geral. Ainda mais com a recente denúncia feita pelo deputado federal Miro Teixeira de que existe uma rede de escutas ilegais contra membros do governo Dilma Rousseff e grandes empresários que fazem negócios com a máquina federal. O que ninguém está revelando é que a arapongagem é promovida por empresas transnacionais de segurança e inteligência. Elas são contratadas pelos maiores investidores internacionais que estão com interesses de negócios contrariados pela petralhada. Os prejudicados ou lesados sabem dar o troco em quem os prejudica. Usando formas legais ou ilegais. O jogo de poder econômico não tem regras limpas em seus bastidores.

Imagina se os arapongas transnacionais revelarem que a Doutora Rose torrou R$ 9 mil em compras no luxuoso Shopping Iguatemi, em São Paulo, nas vésperas do Natal deste ano, como se nada tivesse acontecido e a vida estivesse mais que bela para ela?

O negócio para Lula é se agarrar na bóia. Mas é preciso tomar cuidado porque muita cagada já foi e ainda está por ser feita por aqueles que perderam completamente a noção de como se portar na vida pública – sem imitar o que se faz na privada...

Vida que segue... Ave atque Vale! Fiquem com Deus.
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domingo, 23 de dezembro de 2012

Nunca antes na historia deste país aposentados perderam tanto! Culpa do Lula!


Perdas salariais dos aposentados alcançarão 81%

Guilherme Almeida
Realmente podemos dizer que dinheiro para maracutaias existe, enquanto os governos sempre sacrificam os aposentados. Para constatar essa situação, vamos transcrever trecho de um artigo de Maurício Oliveira, assessor econômico da COBAP (Confederação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil):
Depois de anunciar na Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO) de que não haverá aumento real para as aposentadorias e pensões acima do salário mínimo em 2013, o governo federal piora a situação salarial de mais de 9 (nove) milhões de pessoas e suas famílias. Além disso, a medida também aumentará o endividamento de todos.
Em termos percentuais, no período de janeiro de 1994 a janeiro de 2013 (previsão), as perdas salariais dos aposentados e pensionistas somarão 81%. Separando os governos, as perdas salariais no governo FHC foram de 26,6%; no governo Lula foi de 42,61% e no governo Dilma já alcança, em apenas dois anos 11,34% (previsão).

Fonte: Tribuna da Imprensa

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sábado, 13 de outubro de 2012

NEGÓCIOS DA POLÍTICA PARTIDÁRIA

EDITORIAL - O GLOBO - 13/10/2012

O julgamento do mensalão, talvez o mais abrangente caso de corrupção nas esferas de poder de que se tem notícia da história republicana, recoloca em questão os desvios verificados no universo da política. O desfecho do caso coincide com a aplicação prática bem-sucedida da Lei da Ficha Limpa, e isso atrai ainda mais as atenções na sociedade para a imperiosa faxina ética na vida pública.
Condenações pelo Supremo num processo apinhado de nomes estrelados do PT e políticos da base aliada ao governo produzem o importante efeito de, ao gerar jurisprudências mais eficazes no julgamento de casos de corrupção na esfera pública, estabelecer limites moralizadores a quem atua dentro dos aparelhos do Estado, em cargos eletivos ou não. Mas, assim como na Lei da Ficha Limpa, não será apenas o desfecho positivo para a sociedade do julgamento do mensalão que vacinará a máquina pública contra investidas de corruptos ou desinfetará por completo a política partidária. Aperfeiçoamentos de jurisprudência, para adequá-la a novos tempos, e a Ficha Limpa são avanços há alguns anos inimagináveis. Porém, é preciso mais; é necessário perseverar na modernização do aparato jurídico na linha da moralização da política.
Reportagem recente do "Globo a Mais", edição vespertina do jornal para tablets, tratou de um assunto até folclórico, mas que reflete grave mazela de nossa política: os candidatos nanicos que sempre disputam eleição, sem se importar com a certeza da derrota. Por trás deles há uma legislação leniente, que permite a proliferação de partidos pequenos, com acesso ao milionário fundo partidário - quem sabe, aqui esteja a explicação para tanta persistência cívica? - e a minutos valiosos nos horários gratuitos de propaganda partidária, principalmente na TV.
De 1985, marco histórico do fim da ditadura, a 95, a excessiva liberalidade da legislação - compreensível devido ao momento de desintoxicação da política, contaminada por normas e regras autoritárias do regime militar - permitiu uma explosão no surgimento de partidos. Depois, a porta, escancarada, foi meio fechada, com a exigência de pelo menos 500 mil assinaturas de eleitores para o lançamento de legendas.
Frestas continuaram abertas, porque uma imprescindível cláusula de barreira foi derrubada no Supremo, por ter sido instituída via lei ordinária e não por emenda constitucional. A exigência de um mínimo de votos nacionais (5%) e em pelo menos nove estados (2%) sanearia o Congresso e tornaria mais fácil e séria a construção de alianças. Nada foi feito. E nanicos continuam a literalmente vender a outros partidos tempo de TV em campanhas eleitorais, a mercadejar apoio, a alugar a voz para alvejar terceiros candidatos e a impedir a realização de debates na mídia eletrônica, por exigirem a presença apesar de sua insignificância. Em algum momento, o assunto terá de ser levado a sério pelos legisladores, se a ideia for mesmo aperfeiçoar a política brasileira.
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O esperneio do condenado

Por - EDITORIAL O ESTADÃO - O Estado de S.Paulo - 12/10

O direito de protestar contra uma sentença - o jus sperneandi, na apropriada expressão popular - está arraigado na tradição jurídica do Ocidente. O inconformismo do réu com a condenação recebida e não mais passível de ser revertida é aceito pela razão fundamental de que ninguém pode ser obrigado a se congratular com o próprio infortúnio nem tampouco a se calar em face do castigo que teria feito por merecer. Há formas e formas de espernear, metaforicamente falando. Nas sociedades livres, alguns espasmos começam antes mesmo do julgamento, com a desqualificação dos acusadores, e prosseguem com crescente virulência até explodir em ofensas aos juízes. Nesses casos, um limite é facilmente ultrapassado: o condenado vai das calculadas juras de inocência e do libelo teatral contra os que delas não se convenceram à incitação contra o tribunal em si - como se este tivesse subvertido as normas do Estado Democrático de Direito, em conluio com os seus inimigos.

Foi o que fez, evidentemente, o ex-ministro José Dirceu, condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção ativa no caso do mensalão, pelo eloquente placar de 8 votos a 2. Deu assim a senha para a nação petista, como se jactam os companheiros, reverberar a sua aparentemente justa ira, proclamando a deslegitimação da Alta Corte por estar a serviço dos setores conservadores do País, entre os quais, por sua vez, avultariam os meios de comunicação. Mas, pragmático à medula como sempre foi, Dirceu houve por bem desaconselhar a militância a brandir tochas e punhos cerrados defronte ao Supremo já agora. A prioridade, ensinou à direção do partido, anteontem, é ganhar as eleições municipais, principalmente em São Paulo. "O mensalão será uma batalha para muitos anos", antecipou, pregando, segundo relatos, a criação de controles para a mídia e o Judiciário. É de lembrar que, pouco antes do início do julgamento, ele atiçou a UNE contra o STF. Deu em nada.

Na véspera, enquanto se alicerçava no tribunal a convicção da maioria absoluta de seus membros de que o homem mais poderoso do governo Lula, entre 2003 e 2005, foi também o mentor da compra de apoio parlamentar ao Planalto e o supervisor do esquema, ele distribuiu uma nota não menos escandalosa, embora por outra razão, do que a sua indelével obra política daqueles anos. Depois de reviver as provações por que passou sob a ditadura militar, em especial o banimento do País e a cassação de sua nacionalidade - de fato, uma "ignomínia" do regime, mas da qual não foi a única vítima -, acusou a Suprema Corte, "sob forte pressão da imprensa", de produzir "um juízo político e de exceção". Ou seja, equiparou o STF - onde, não custa repetir, têm assento oito ministros indicados ou por Lula ou por sua sucessora Dilma Rousseff, onde o contraditório faz parte da ordem natural das coisas e cujas sessões a população pode acompanhar ao vivo - às instâncias do período autoritário.

A composição do tribunal não foi esquecida nos despachos dos correspondentes estrangeiros no País e nas análises dos respectivos órgãos de mídia, para ressaltar a ausência de parti pris no julgamento dos petistas Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares - este último condenado por corrupção ativa pela unanimidade dos ministros, incluindo portanto Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, os únicos a absolver o réu principal. Acrescente-se que o chefe do Ministério Público, Roberto Gurgel, autor da acusação, foi nomeado pelo ex-presidente e reconduzido ao cargo pela atual.

O que a imprensa do exterior destacou, a par do registro da teoria conspiratória petista, foi o resultado literalmente extraordinário do processo. O New York Times, por exemplo, chamou a atenção para a "rara ruptura" nos padrões de impunidade "a que os brasileiros estão acostumados". Para o Wall Street Journal, na mesma linha, as sentenças serviram "para que a população volte a confiar no Poder Judiciário".

O esperneio de Dirceu, em suma, oscila entre o patético e o injurioso. Era o que faltava para ele borrar com a própria mão os vestígios de respeito que o jovem radical de outros tempos possa ter conseguido mesmo entre os seus adversários.

Fonte - http://arquivoetc.blogspot.com.br

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Bravatas comprometedoras

Por - MERVAL PEREIRA - O GLOBO - 12/10

A mania que o ex-ministro José Dirceu ainda cultiva, mesmo depois de cassado pela Câmara e de ser réu do processo do mensalão, de relatar suas atividades políticas passadas e presentes com toques de megalomania que as transformam em verdadeiras proezas acabou virando-se contra ele mesmo neste julgamento do mensalão.

Não há quem não saiba, vivendo no Brasil naquele ano de 2003 ou nos dias de hoje, que Dirceu sempre foi o grande articulador político do governo Lula, com ingerência em praticamente todas as áreas do governo, a exemplo do que fazia quando liderava o PT em acordo com Lula.

Centralizador, quando deixou a Casa Civil, presidia dezenas de conselhos interministeriais, tratando dos mais variados assuntos. Sua fome de explicitar o poder que detinha era tamanha que a ordem de precedência dos ministros foi alterada, e ele passou a ser sempre o primeiro nas solenidades.

Pelo decreto 70.724, que trata de "normas do cerimonial público e a ordem geral de precedência" de autoridades em eventos oficiais, a sequência de entrada era determinada pelo critério histórico de criação do respectivo ministério, sendo o da Justiça o mais antigo. Na época de Dirceu, surge uma regra interna, ainda em vigor no Planalto, de que a Casa Civil teria precedência. Ele era considerado o primeiro-ministro do governo, aquele que realmente governava, realidade que até irritava o presidente Lula, o que não o impediu de classificar Dirceu de "o capitão do time". Pois foi esse poder exercido sem a menor discrição, com fome de exibição, que transformou Dirceu em "chefe da quadrilha" quando o Ministério Público denunciou o esquema.

Ele até que tentou montar um Ministério partidário cooptando o PMDB para o primeiro governo. Fechou um acordo, mas foi desautorizado por Lula, que naquele início de governo dizia não se sentir confortável ao lado do PMDB. A indicação do então deputado federal Eunício Oliveira para uma das vagas do PMDB, por exemplo, provocou a ira de Lula. Mais adiante, depois da crise que quase o tirou do poder, Lula refez seus conceitos, colocou todo o PMDB no governo e deu um ministério ao hoje senador Eunício Oliveira.

Em 2003, para dar a maioria ao governo, o PT, ao comando de Dirceu, foi atrás de adesões e montou esquema para esvaziar os partidos oposicionistas. Tanto que o PT quase não aumentou sua bancada na Câmara, mas os vários partidos que foram para a base, esses, sim, cresceram bastante. O PTB de Roberto Jefferson aderiu ao governo e teve aumento de cerca de 20 deputados em sua bancada; o PL de Valdemar da Costa Neto, hoje PR, ganhou outros 20. Já o PFL perdeu 26 deputados, e o PSDB, outros 19.

Essa migração da oposição para o governo teve um custo, traduzido no mensalão. Mas o processo de redução da oposição, através da cooptação de deputados para a base governista, continua em ação, agora com troca de cargos no governo ou a perspectiva de poder, caso do novo PSD, que praticamente desidratou o DEM e deve ser incorporado ao Ministério de Dilma após o 2º turno das eleições.

Pois toda essa movimentação partidária foi iniciada por Dirceu quando ainda estava na Casa Civil, o que o transformou aos olhos de todos como o "todo-poderoso" do governo Lula, fama que ele cultivava, mas ao mesmo tempo fez dele o réu mais óbvio quando estourou o escândalo do mensalão.

Suas bravatas eram tão explícitas que tornaram factível que fosse ele o elo final da cadeia criminosa. Bem que José Dirceu avisou várias vezes que nunca fizera qualquer movimento político sem que Lula soubesse, mas sua figura já ganhara dimensões épicas que fizeram dele o figurino perfeito para a tese do domínio do fato, que acabou levando à sua condenação.

Entretanto, o presidente do Supremo, Ayres Britto, disse que encontrou no depoimento de Dirceu à Justiça elementos que claramente o incriminavam, por suas próprias palavras, como o comandante da operação, sem que fosse necessário usar a teoria do domínio do fato. Ayres Britto pinçou declarações de Dirceu em juízo: "O papel do articulador é levar a que o governo tenha maioria na Câmara, que aprove seus projetos, discutir com a Câmara, com os governadores, prefeitos e conversar com a sociedade. Esse é o papel que tenho até hoje. Me reunia com todos os partidos."

Era um líder "extremamente centralizador", definiu Ayres Britto, para concluir por sua culpa.

Fonte - http://arquivoetc.blogspot.com.br

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Crime e castigo

Por ZUENIR VENTURA - O GLOBO - 13/10


Com sua serena lucidez, a ministra Cármen Lúcia fez uma ressalva ao votar pela condenação de José Genoino e José Dirceu: "Não estou julgando a história de pessoas que em diversas ocasiões tiveram a vida reta. Estou julgando os fatos apresentados nestes autos." O mesmo poderia ser dito em relação ao PT, cuja trajetória até estourar o escândalo do mensalão foi também reta. Não são os princípios programáticos do Partido dos Trabalhares que estão sendo condenados pelo STF, "não é a história, mas os fatos", como também afirmou o decano Celso de Mello. O que se condena é um acidente grave de percurso, um mau passo, um enorme desvio de conduta. Em reunião com seu Ministério no dia 12 de agosto de 2005, Lula, chocado com as revelações sobre dirigentes do partido, desabafou: "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas."

Por que não pedir agora? Por que o Lula de 2012 reage ao julgamento mandando seus companheiros receberem o castigo de "cabeça erguida", como se houvesse algum motivo para soberba? Seria tão mais honesto, tão mais coerente com as origens éticas do partido se, em vez de desqualificar o trabalho do Supremo com suspeitas infundadas e se, em lugar de responsabilizar a mídia, os réus mensaleiros aceitassem o revés com humildade e fizessem uma corajosa autocrítica como pedia Lula sete anos atrás.

Como dirigentes partidários ousam suspeitar da isenção de uma Corte cujos membros em sua maioria foram indicados por Lula e Dilma e que, portanto, não têm qualquer razão para lhes ser deliberadamente hostis? Que interesses levariam esses juízes a sacrificar suas reputações para "condenar sem provas"? Como colocar em dúvida a correção de um personagem como Joaquim Barbosa, que pode ter um temperamento difícil, mas cuja opção política é conhecida (há dias, ele confessou em entrevista ter votado três vezes em Lula, sem arrependimento, porque "as mudanças e avanços no Brasil nos últimos dez anos são inegáveis").

Os petistas acreditam ter motivos de queixa pelo rigor inédito do STF, que, espera-se, não seja de exceção, aplicado apenas nesse caso. Mas, ao se recusar a assumir a culpa que lhe cabe, o PT perdeu a oportunidade histórica de ser diferente também no erro, como foi um dia nos acertos.

Fonte - http://arquivoetc.blogspot.com.br

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Os marginais do poder

Por MARCO ANTONIO VILLA - O Estado de S.Paulo - 13/10

Vivemos um tempo curioso, estranho. A refundação da República está ocorrendo e poucos se estão dando conta deste momento histórico. Momento histórico, sim. O Supremo Tribunal Federal (STF), simplesmente observando e cumprindo os dispositivos legais, está recolocando a República de pé. Mariana - símbolo da República Francesa e de tantas outras, e que orna nossos edifícios públicos, assim como nossas moedas - havia sido esquecida, desprezada. No célebre quadro de Eugène Delacroix, é ela que guia o povo rumo à conquista da liberdade. No Brasil, Mariana acabou se perdendo nos meandros da corrupção. Viu, desiludida, que estava até perdendo espaço na simbologia republicana, sendo substituída pela mala - a mala recheada de dinheiro furtado do erário.

Na condenação dos mensaleiros e da liderança petista, os votos dos ministros do STF têm a importância dos escritos dos propagandistas da República. Fica a impressão de que Silva Jardim, Saldanha Marinho, Júlio Ribeiro, Euclides da Cunha, Quintino Bocayuva, entre tantos outros, estão de volta. Como se o Manifesto Republicano de dezembro de 1870 estivesse sendo reescrito, ampliado e devidamente atualizado. Mas tudo de forma tranquila, sem exaltação ou grandes reuniões.

O ministro Celso de Mello, decano do STF, foi muito feliz quando considerou os mensaleiros marginais do poder. São marginais do poder, sim. Como disse o mesmo ministro, "estamos tratando de macrodelinquência governamental, da utilização abusiva, criminosa, do aparato governamental ou do aparato partidário por seus próprios dirigentes". E foi completado pelo presidente Carlos Ayres Brito, que definiu a ação do PT como "um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto". Foram palavras duras, mas precisas. Apontaram com crueza o significado destrutivo da estratégia de um partido que desejava tomar para si o aparelho de Estado de forma golpista, não pelas armas, mas usando o Tesouro como instrumento de convencimento, trocando as balas assassinas pelo dinheiro sujo.

A condenação por corrupção ativa da liderança petista - e por nove vezes - representaria, em qualquer país democrático, uma espécie de dobre de finados. Não há no Ocidente, na História recente, nenhum partido que tenha sido atingido tão duramente como foi o PT. O núcleo do partido foi considerado golpista, líder de "uma grande organização criminosa que se posiciona à sombra do poder", nas palavras do decano. E foi severamente condenado pelos ministros.

Mas, como se nada tivesse acontecido, como se o PT tivesse sido absolvido de todas as imputações, a presidente Dilma Rousseff, na quarta-feira, deslocou-se de Brasília a São Paulo, no horário do expediente, para, durante quatro horas, se reunir com Luiz Inácio Lula da Silva, simples cidadão e sem nenhum cargo partidário, tratando das eleições municipais. O leitor não leu mal. É isso mesmo: durante o horário de trabalho, com toda a estrutura da Presidência da República, ela veio a São Paulo ouvir piedosamente o oráculo de São Bernardo do Campo. É inacreditável, além de uma cruel ironia, diante das condenações pelo STF do núcleo duro do partido da presidente. Foi uma gigantesca demonstração de desprezo pela decisão da Suprema Corte. E ainda dizem que Dilma é mais "institucional" que Lula...

Com o tempo vão ficando mais nítidas as razões do ex-presidente para pressionar o STF a fim de que não corresse o julgamento. Afinal, ele sabia de todas as tratativas, conhecia detalhadamente o processo de mais de 50 mil páginas sem ter lido uma sequer. Conhecia porque foi o principal beneficiário de todas aquelas ações. E isso é rotineiramente esquecido. Afinal, o projeto continuísta de poder era para quem permanecer à frente do governo? A "sofisticada organização criminosa", nas palavras de Roberto Gurgel, o procurador-geral da República, foi criada para beneficiar qual presidente? Na reunião realizada em Brasília, em 2002, que levou à "compra" do Partido Liberal por R$ 10 milhões, Lula não estava presente? Estava. E quando disse - especialmente quando saiu da Presidência - que não existiu o mensalão, que tudo era uma farsa? E agora, com as decisões e condenações do STF, quem está mentindo? Lula considera o STF farsante? Quem é o farsante, ele ou os ministros da Suprema Corte?

Como bem apontou o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, o desprezo pelos valores republicanos chegou a tal ponto que ocorreram reuniões clandestinas no Palácio do Planalto. Isso mesmo, reuniões clandestinas. Desde que foi proclamada a República, passando pelas sedes do Executivo nacional no Rio de Janeiro (o Palácio do Itamaraty até 1897 e, depois, o Palácio do Catete até 1960), nunca na História deste país, como gosta de dizer o ex-presidente Lula, foram realizadas na sede do governo reuniões desse jaez, por aqueles que entendiam (e entendem) a política motivados "por práticas criminosas perpetradas à sombra do poder", nas felizes, oportunas e tristemente corretas palavras de Celso de Mello.

A presidente da República deveria dar alguma declaração sobre as condenações. Não dá para fingir que nada aconteceu. Afinal, são líderes do seu partido. José Dirceu, o "chefe da quadrilha", segundo Roberto Gurgel, quando transferiu a chefia da Casa Civil para ela, em 2005, chamou-a de "companheira de armas". Mas o silêncio ensurdecedor de Dilma é até compreensível. Faz parte da "ética" petista.

Triste é a omissão da oposição. Teme usar o mensalão na campanha eleitoral. Não consegue associar corrupção ao agravamento das condições de miséria da população mais pobre, como fez o ministro Luiz Fux num de seus votos. É oposição?
Font - http://arquivoetc.blogspot.com.br



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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ranking dos Políticos



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domingo, 20 de maio de 2012

'Você é nosso e nós somos teu', por Mary Zaidan

Português abaixo da crítica, conteúdo mais baixo ainda. Assim pode ser definida a mensagem do deputado Cândido Vacarezza (PT-SP) ao governador Sérgio Cabral, flagrado pelas câmaras do SBT durante reunião da CPI mista que deveria investigar as estripulias do contraventor Carlos Cachoeira. "A relação com o PMDB vai azedar. Mas não se preocupe. Você é nosso e nós somos teu.”
Embora não tenha revelado nada de novo, Vacarezza deu um azar danado.
Nos 83 toques em que confessa amor eterno ao governador do Rio, o ex-líder do governo na Câmara expôs com todas as letras o que muitos estão cansados de saber, mas jamais revelariam: a blindagem total aos que interessam – governo, PT e aliados amigos - em uma CPI patrocinada pela maioria, talvez a única na história.
Coisa que só a onipotência do ex-presidente Lula poderia conceber.
Precedida ou seguida de um “Por que? O que houve?” do preocupado interlocutor – algo a que poucos deram atenção -, o torpedo de Vacarezza ganha potencial explosivo. Pode significar muito mais do que a óbvia proteção aos cupinchas. Deixa claro que de sério a CPI tem pouco ou quase nada. Coisa para a plateia ver.
Mas o que será que tanto apoquenta Cabral? Se, como diz, não aparece em gravação alguma, não precisaria de proteção adicional. Muito menos de informações online, no auge do debate, sobre o quadro de convocações da CPI.
Os guardanapos dos seus lhe perturbam a cabeça? Teme novas fotos? Novas revelações?
Os motivos que levariam líderes de primeira grandeza do PT a se indispor abertamente com o PMDB, maior aliado e detentor da vice-presidência da República, são ainda mais inexplicáveis. Só mesmo encrencas das grandes valeriam tal preço.
Questões se amontoam às dezenas. Poucas serão respondidas a se medir pela primeira lista de convocações da CPI, todas para ouvir o que a Policia Federal já cansou de ouvir.
Uma comissão que se faz de inútil. Que, por escolha e gosto, desconsidera descalabros atrás de descalabros sob o argumento de que não se enquadram no escopo das investigações.
Imaginam, também por escolha e gosto, que investigações têm limites controláveis, esquecendo-se que a CPI mais devastadora já realizada no país começou com um alvo, o pagamento de propina nos Correios, e achou outro muito mais gigantesco, o mensalão.
Por essas e outras, é melhor proteger uns e outros, mandar torpedos e SMS – já que ligações telefônicas são perigosas demais – e tentar não dar sorte para o azar. Para quem deve e teme, não é um risco que dê para correr.
 
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa, @maryzaidan
 
Fonte: Blog do Noblat

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A embromação da Carta Capital e da Record

por Flavio Morgenstern

“Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado.
Todo o resto é publicidade.”
George Orwell

A Carta Capital publicou na capa dessa semana uma capa fictícia da revista Veja (uma capa dentro da capa), com uma foto de Roberto Civita, atual presidente da editora Abril, e a chamada: “O Nosso Murdoch”. A provocação tenta igualar Roberto Civita a Rupert Murdoch, que fechou um jornal no Reino Unido, o News of the World, após um escândalo revelar que o tablóide fazia escutas ilegais de políticos, celebridades e cidadãos comuns.
O assunto da Carta Capital é a Veja. A revista de Mino Carta apenas saiu do armário e admitiu que não tem muito mais do que falar. Ou alguém se lembra de algum escândalo que tenha sido descoberto pelo jornalismo investigativo da Carta Capital? Algum caso de corrupção flagrado por ela? Algum ministro derrubado?

Não é a primeira vez em que isso ocorre. Quando o escândalo dos aloprados veio à tona, todas as revistas cuidaram de publicá-lo na primeira página. Carta Capital, temendo ficar mal com seus asseclas, esperou, e publicou uma capa em que afirmava que o segundo turno das eleições havia sido produzido por uma “farsa” entre a tríada satânica, responsável por todos os males do mundo: o PSDB, a Veja e a Globo. Todo o busílis foi baseado no fato de que, quando o escândalo vazou, havia um carro do PSDB na frente do hotel antes mesmo de a imprensa lá chegar. É com esse tipo de “fato” que a Carta Capital faz “denúncia”.

A tática funciona. Ninguém, absolutamente ninguém no mundo lê Carta Capital para se informar, e sim para acreditar que não precisa se informar na imprensa maior de idade. A revista é apenas lida para se confirmar o que já se pensa. Seu público é de petistas e esquerdistas de quilates mais violentos. A revista, incapaz de produzir uma denúncia, cega aos trambiques de Brasília ou de qualquer lugar do país e do mundo, muda quanto a qualquer desvio de conduta do PT, funciona apenas para aqueles que querem continuar acreditando na ideologia iluminada da esquerda, e que não podem ler qualquer jornal sem o alto risco de não conseguir mais sustentar a crença na competência e honestidade vermelha.

Suas relações com o governo são desabridas. Suas páginas têm um percentual altíssimo de propaganda estatal – percentual absurdamente maior do que o que há em qualquer outra revista. Uma propaganda pode servir para apresentar um produto novo (as vendas do SWU dos pôneis no ano passado valem um curso de marketing), para vendê-lo diretamente (como os anúncios em nossa própria página, ali do lado) ou para firmar uma marca. Como muitas das empresas estatais não têm concorrência, ou ao menos não precisam jogar regras de mercado para se preocupar com elas, não há produtos novos e nem venda direta, resta este último artifício.

Porém, por que firmar tanto a marca de uma empresa às vezes sem concorrentes – vamos supor, uma hipotética grande estatal de petróleo? Quando a propaganda não tem retorno auferível em números, e o dinheiro escorre em mão única, é de muito mais bom alvitre compreender que a empresa só está fazendo “propaganda” para financiar uma revista que lhe ajude de volta, falando bem do governo – uma espécie de Diário Oficial do Partido, com diagramação de semanal e texto mastigadinho para o leitor médio. Se a artimanha ainda soa teórica, analisemos em números: a Carta Capital possui tiragem média de 75 mil exemplares (menor do que o número de alunos da USP). A Veja possui tiragem de 1,2 milhões. Se você quer “firmar a marca” da estatal de sua preferência (mesmo aquelas sem concorrência, como a empresa de postagem e a de petróleo), em qual das duas revistas vai apresentar a marca ao povão? Nenhum leitor da Carta estranha o fato de o governo que a revista do Mino tanto elogia preferir entupir suas páginas com uma porcentagem muito maior de propaganda estatal. Nunca é demais lembrar: a Carta Capital oferecia desconto em assinatura para filiados ao PT, e a mamata só acabou por denúncia. Da Veja.

Com uma tiragem tão ínfima, é natural que ninguém, fora quem acreditará no Partidão não importa o que a realidade diga, se preocupe com suas páginas. Há também o fator psicológico: Mino Carta já trabalhou com Civita, depois preferiu o reino mais rentável de bajular os adversários da Veja. Primeiro partiu para a defesa de Orestes Quércia, depois chegou no PT e na operação “a culpa é toda da mídia golpista”. Só um psicanalista sem mais o que fazer se preocuparia com a saúde e higiene mental das páginas da Carta Capital. Ou seja, sempre sobra para nós o trabalho paleontológico e pouco higiênico de descer às crostas do jornalismo do Reino Monera.

Em coluna de Maurício Dias, após um sem número de ilações e dislates pouco substanciosos sobre a Veja (a velha tática de afirmar generalidades como prova, à guisa de “a revista sapateia as regras do jornalismo”), há um clímax que ultrapassa muito as raias do delírio. Afirmando que “a imprensa brasileira, particularmente, tem assombrosos erros históricos” (erros históricos? alguma nasceu na data errada? alguma publicou algo antes de ela própria existir?), o “prontuário inclui, entre outros, a participação na pressão que levou Vargas ao suicídio, em 1954″. Tradução: se a imprensa faz pressão sobre uma figura pública, um governante, um presidente ou um ditador, ela, a imprensa, está cometendo um erro histórico. Onde já se viu uma coisa dessas?! Liberdade de imprensa não é liberdade para fazer pressão sobre ditadores – ainda mais se estes pedem pinico. A Carta Capital usa um argumento pior do que os lunáticos da FOX News, que atribuem à “mídia golpista da Costa Leste” o escândalo que derrubou Nixon. Deixando bem claro: Nixon, um dos piores presidentes do século, estava longe de ser um ditador como Getúlio Vargas.

Antes da “bombástica” matéria de capa, também a coluna do próprio Mino Carta, que exige um grau de leitura very hard, já tasca de cara que a suposta operação abafa sobre as relações entre Cachoeira e Veja “não aconteceria nos países onde o jornalismo não se confunde com o poder e em vez de servir a este serve ao seu público”. Quem melhor do que o editor da revista que dá desconto em assinatura ao PT e coincidentemente rende loas ao governo ao lado de anúncios estatais (sem os quais provavelmente a publicação iria à bancarrota) para falar em jornalismo que se confunde com o poder? Aliás, quantas vezes a acusação genérica (e sem imputação de qualquer delito substancial) que faz vale mesmo mais à Veja do que à sua própria revista? – Quantas vezes a Veja trocou uma defesa cega do governo em troca de algo vindo do governo? A crítica não é, justamente, que a revista da Abril nunca é amiga do governo – é a “mídia golpista” par excellence?

Mino também afirma que “a corporação é o próprio poder” (interpretem aí), “de sorte a entender liberdade de imprensa como a sua liberdade de publicar o que bem lhe aprouver. A distorcer, a inventar, a omitir, a mentir”. Descontando a velha ojeriza pela liberdade de imprensa dos outros, é o tipo de acusação que faz leitores da Carta Capital jurarem que provaram que sua nêmesis “distorceu, inventou, omitiu e mentiu”, sem apontar uma única linha que comprove o fato.

Ao marcar cada frase da reportagem principal passível de discussão em caneta vermelha, as páginas ficam mais vermelhas do que o jornal do PCO.

A tal reportagem, assinada por Cynara Menezes, afirma que “Veja serviu antes de tudo aos interesses políticofinanceiros (sic) de um grupo organizado de criminosos”. O fato é que Veja usou Cachoeira como fonte – o que denunciou a quadrilha do Ministério dos Transportes / Dnit que Dilma mesma acabou por demitir em massa. A quadrilha do Dnit era um aparelhamento de cima abaixo orquestrada por José Dirceu. Havia uma encrenca entre Dirceu e Cachoeira. Para denunciar Dirceu, Veja usou quem tinha as melhores fontes possíveis: seu arqui-inimigo. Alguém aí pensaria em fonte diferente? E por acaso, inverter a lógica também não funcionaria? Criticar Cachoeira acaso seria “servir aos interesses politicofinanceiros (bleaght) de Dirceu”? Ademais, Dirceu e Cachoeira estarem concorrendo em algo já não é vergonha demais pra um país só?

Reportagem dessa mesma semana no semanário da Abril mostra fotos de Sérgio Cabral na esbórnia em hotéis caríssimos de Paris com Fernando Cavendish, presidente da construtora Delta, atolada, pode-se dizer literalmente, nas obras superfaturadas que forneceram o mar de dinheiro sujo que gerou todo o atual escândalo. As fotos foram publicadas no blog de Anthony Garotinho e de César Maia, ambos inimigos entre si, mas também inimigos de Sérgio Cabral na velha disputa pelo governo do Rio de Janeiro. Acaso Veja estaria “servindo antes de tudo aos interesses políticofinanceiros (sic)” de Garotinho e Maia? Devemos ignorar as fotos graças às fontes? Será que Carta Capital teria coragem de, ao invés de informar uma generalidade, com todas as fontes “melhores” que possui e o jornalismo investigativo de maior qualidade que julga praticar, afirmar claramente qual crime arrolado no Código Penal a revista Veja teria cometido? Tim Lopes, se sobrevivesse, deveria então ser investigado por uma CPI?

Seguem-se três longos parágrafos (cerca de 40% das primeiras 2 páginas de 5) de ilações sobre Rupert Murdoch. É uma comparação tão infundada que ultrapassa os limites da boa-fé. Murdoch praticou escutas ilegais. Veja tinha uma fonte que cagüetou falcatruas de um inimigo. Nenhuma atitude minimamente similar, que dirá qualquer crime, para haver tanta vontade de pechar Civita como “o nosso Murdoch”. Os que adoram criticar a Veja, por sinal, não se furtam a pegar opiniões de gente muy amiga dos chefões das falcatruas inimigas. Quantas vezes por aí você viu Luis Nassif, Vladimir Safatle, Paulo Henrique Amorim et caterva lado a lado a José Dirceu, em evento com dinheiro público, onde todos falam, justamente, sobre mídia? Quem pode dizer que “Nassif, Safatle e Paulo Henrique Amorim servem antes de tudo aos interesses politicofinanceiros de José Dirceu”? E não soa, assim, até crível tal hipótese?

A própria reportagem dá ensejo a tal idéia logo após. Os encontros de José Dirceu, ex-ministro todo poderoso apeado do cargo por ser considerado o “chefe da quadrilha” pelo Procurador Geral da República, aparece como vítima da “parceria Veja-Cachoeira”, quando Dirceu dá queixa na polícia após um repórter da revista tentar entrar no apartamento em que se hospedava em um hotel de Brasília.

A defesa do “chefe da quadrilha”, ao invés de mostrar alguma prova de algo, é prestar uma queixa contra um repórter meio atrapalhado? A reportagem ainda questiona: “qual a relevância da divulgação de encontros feitos à luz do dia em um local público da capital federal?” Ora, um hotel não é um local público, ou Dirceu não poderia dar queixa. E que relevância tem um ex-ministro envolvido em denúncias que somam 111 anos de prisão fazer encontros com o presidente da Petrobras, o ministro do Comércio Exterior, além de deputados do porte de Vaccarezza e senadores (dois do PSDB, pra quem acredita que é uma disputa partidária em jogo)? Não há nada de estranho nisso? Não há nada a estranhar de Dirceu ter sido contratado pela Delta como uma assessor empresarial da única empresa do ramo inteiramente baseada em contratos públicos? Aliás, da principal empresa do PAC, defendido tão aguerridamente pela Carta Capital?

Diz a Carta: “Cachoeira afirma que ‘arrumou uma fita’ para o repórter, mas não especifica como”. Fala que a “intimidade” do contraventor com o diretor da Veja Policarpo Jr. é “inegável”, pois o bicheiro em uma gravação o chama de “Poli”. Humm. Ouvindo a gravação por inteiro, vê-se que é Cláudio Abreu, executivo da Delta, quem fala sobre o “PJ”, e Cachoeira sequer entende de quem Abreu estava falando. A Record acredita que isso é um “apelido íntimo” que Policarpo ganhou… de Cachoeira.

Intimidade inegável? Pode até ser que houve intimidade, mas se isso é prova de intimidade, não quero imaginar quantos amigos íntimos tenho pela quantidade de pessoas que abreviam meu sobrenome. Por sinal, até a própria Carta admite que aVeja publicou em suas próprias páginas conversas de seu repórter com Cachoeira. Alguém que praticaria “toma lá dá cá” faria o mesmo?

Para a Carta, isso foi um “toma lá dá cá”. Misteriosamente, não houve menção nem na Carta Capital, nem na reportagem orquestrada por Paulo Henrique Amorim na Record, da reclamação de Cachoeira pela falta de contrapartida de Policarpo pelos favores que lhe prestou (embora tanto a revista de Mino quanto a Record não parem de repetir uma tal “troca de favores”). Como era mesmo o papo sobre “distorcer, inventar, omitir, mentir”?

Há informações completamente desconexas e sem provas, como Cachoeira “utilizar” a Veja para “promover” Demóstenes Torres. Se até a cúpula do PT acreditava na lisura de Demóstenes, qual a prova de que só a toda-poderosa Veja conseguiu passar sozinha tal imagem do senador? Que prova tem de que “a revista sabia das relações carnais (sic) de um senador com um contraventor, e não só não o denunciou, como o promoveu constantemente”? A primeira ligação de Demóstenes com Cachoeira surgiu, justamente, na Veja: mais especificamente no blog de Ricardo Setti. Ou foi o jornalismo investigativo politicamente correto da Carta Capital que descobriu alguma coisa?

Ultrapassa portanto o ápice do ridículo ler Carta Capital reclamando de “‘denúncias’ sem comprovação” (aspas do original), de “buscar o contraditório” (vão oferecer desconto em assinatura para filiados ao PSDB também?) e de fontes com “problemas legais” (e defender a teoria conspiratória da “farsa que levou ao segundo turno” em 2006 ao mesmo tempo). É apenas uma aleivosia que só converte os já convertidos, uma retórica malemolente que acha que citar Merval Pereira, que esmirilha de cabo a rabo tal acusação, e chamá-lo de “funcionário dos Marinho” depois é prova suficiente de que Merval está errado. Mas o mais divertido foi ver uma reclamação de “falta de capas” da Veja sobre o escândalo (embora tenha havido duas, e chamadas de capa em todas as últimas sete edições), no mesmo fim de semana em que a Veja publica uma curiosa capa desenhada (e, portanto, bem pensada e demorada) incriminando toda a turma de Cachoeira, situação e oposição, todos naufragando no mesmo barco. Quer dizer, alguns já sem barco.
Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Está tentando ligar pro Cachoeira, mas o Nextel tá dando ocupado. No Twitter, @flaviomorgenFonte: Implicante

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sábado, 15 de outubro de 2011

O LULISMO AMORDAÇOU O BRASIL



É preciso reconhecer. A mitificação de Lula no nível que alcançou só poderia ocorrer mediante o invulgar conjunto de circunstâncias que alia características pessoais do líder; notáveis estratégias de poder e de comunicação social; circunstâncias internacionais favoráveis à economia brasileira; manutenção, durante boa parte de seu governo, das políticas de responsabilidade fiscal iniciadas com Itamar Franco; dotação de significativos recursos para o programa Bolsa Família; simpatia internacional ao perfil do "operário no poder cuidando dos pobres". E por aí vai. 

Oitenta e tantos por cento de aprovação no mercado interno, a condição de celebridade internacional e a louvação da mídia mundial compõem um irresistível quadro de mitificação que colocam Lula num altar onde só se pode depositar flores. Critique quem quiser no país, mas não faça isso com Lula. Pega muito mal e retira de você credibilidade para qualquer outra coisa que pretenda dizer. É inútil mostrar que o governo petista se encaminha para fechar uma década com o país ostentando os piores indicadores, seja entre os membros do BRIC, seja entre nossos vizinhos da América Ibérica: a economia que menos cresce, a maior taxa de juros, a menor taxa de investimento, a maior inflação e a maior carga tributária. E as funções essenciais do governo (Educação, Saúde, Segurança e Infraestrutura) numa precariedade que ninguém, em sã consciência, deixará de reconhecer. São afirmações inúteis. Tudo se passa como se, depois de oito anos no poder, Lula nada tivesse a ver com isso. A ele, apenas créditos. 

No entanto, há débitos pesados na conta do lulismo instilado ao país. Em artigos anteriores, tenho afirmado que a política exige senso de realidade, que os bons estadistas são pessoas realistas, são pessoas afastadas de utopias e devaneios e interessadas em respostas corretas para duas interrogações essenciais: qual é o problema? qual é a solução? Nesse sentido, reconheça-se, ao romper com os delírios esquerdistas do PT, Lula conseguiu acertos e afastou-se de muitos erros. Mas na política, o realismo de Lula tornou-se cínico, desprovido de restrições de ordem moral. Abrigou à sombra do poder as piores figuras da política nacional. Não apenas as acolheu. Foi buscá-las para compor a base do governo. Entregou-lhes poder, cargos, fatias do orçamento e poderosas empresas estatais. Teve olhos cegos e ouvidos moucos para as patifarias que proliferaram do topo à base da pirâmide do governo. Seu partido, quando na oposição, brandia indignações morais, pedia CPI para carrocinha de cachorro quente e levantava suspeições sobre a honra de quem se interpusesse no seu caminho. No poder, foi o que se viu, o que ainda hoje se vê, e o quanto já veio à superfície nos primeiros meses da presidente Dilma, sob silêncio conivente das instrumentalizadas organizações sociais cuja boca foi emudecida por cargos e recursos públicos. 

A corrupção, casada em união estável e comunhão de bens com a impunidade, alcançou níveis sem precedentes. Estudo da Fiesp adverte para o fato de que ela consome algo entre 1,4% a 2,3% do PIB e custa cerca de R$ 69 bilhões nas contas da gatunagem fechadas a cada réveillon. A nação chegou ao fastio e à náusea dos escândalos de cada dia. Há uma indignação silenciosa. Ensaiam-se mobilizações de repulsa à corrupção. Mas elas são escassas, pequenas e de utilidade duvidosa. Por quê? Porque a corrupção pode ter filiais até na mais miserável prefeitura do país, mas a matriz está onde está a grana grossa, no poder central da República, para onde convergem todos os cargos, todas as canetas pesadas, todas as decisões financeiras, todos os contratos realmente significativos. E 23% do PIB nacional. O resto é resto. 

Mas não há como apontar o dedo nessa direção sem atingir em cheio o peito de quem, durante oito anos, desempenhou a mesma função de seus antecessores. E a estes, Lula, seu partido e fieis seguidores, sistematicamente, responsabilizavam por toda desonestidade existente no país. Quem quer que sentasse para governar, logo vinha o "Fora Collor", o "Fora Sarney", o "Fora FHC". Alguém sabe me dizer por que, de repente, a corrupção não tem nome próprio nem governo definido? Eu sei. O lulismo amordaçou a moralidade nacional. 

domingo, 9 de outubro de 2011

Bolsa pesca, bolsa isso, bolsa aquilo...


Diante de casos como o da Bolsa Pesca, criada para compensar o pescador que para de trabalhar no período de procriação nos cardumes, mas convertida em mais uma fonte de fraudes contra o contribuinte, fica evidente que não faz mesmo sentido o debate entre "Estado mínimo" e "Estado máximo". A questão tem nuances que escapam ao reducionismo ideológico.


Em artigo no GLOBO de terça, o economista Gil Castello Branco alertou para "o mistério da multiplicação de pescadores". Pois, se em 2003 foram beneficiadas 113.783 pessoas, com um salário mínimo em cada um dos quatro meses de interdição da pesca, hoje o grupo desses "pescadores" chega a meio milhão (553.172).

Por óbvio, há algo muito estranho nesta corrida ao mar, na verdade ao Tesouro: de R$ 81,5 milhões, pagos pelo Ministério do Trabalho - outra vez ele - com dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) a estes pescadores, a conta subiu para espantoso R$ 1,3 bilhão. Como registrou Castello Branco, o dobro do orçamento do Ministério da Pesca(!) e quase três vezes o valor das exportações de pescados e crustáceos de 2009(!).

A reportagem do GLOBO, no dia seguinte ao do artigo, encontrou várias evidências de fraudes, inclusive um ex-pescador, em Niterói, que se beneficia da bolsa e com ela reformou a casa. É mais um caso gritante de ineficiência do Estado na fiscalização do uso do dinheiro do contribuinte.

Tem-se, então, um quadro dramático em que, no espírito da Constituição de 88, o Estado brasileiro está sendo convertido num imenso provedor, distribuindo bilhões de reais do Orçamento por meio de "bolsas" - Família, a mais conhecida delas -, sem maiores fiscalizações.

Temos um enorme aparato estatal, sorvedouro voraz de parcelas crescentes de renda da sociedade: já traga 36% do PIB, mas, gastador contumaz, tem uma despesa que se aproxima de 40%. Fecha as contas, portanto, com déficit.

Parte ponderável deste dinheiro vai, de alguma maneira, para o pagamento de pessoas - bolsas, Previdência (aposentadorias, pensões). Pelos cálculos do economista Raul Velloso, hoje, de forma direta e indireta, 100 milhões de brasileiros dependem em alguma medida do Tesouro, ou cerca da metade da população. Do gasto total do governo, os repasses de teor assistencial e folhas de salários eram 22% em 1987, ano da Constituinte, e em 2010 chegaram a 67%. Não surpreende que falte dinheiro para a infraestrutura e Educação.

Não se discute que num país com as carências e disparidades sociais do Brasil há necessidade de ações focadas para resgatar os miseráveis e dar a eles condições de sobreviver do próprio trabalho.

Mas quando o assistencialismo ganha proporções desmedidas e começa a se eternizar, devido aos polpudos dividendos eleitorais, metástases passam a se alastrar. O assalto ao contribuinte por meio do Bolsa Pesca é apenas um caso. O Estado brasileiro é padrasto para quem paga impostos em dia e não recebe em troca serviços compatíveis, mas é mãe generosa e desatenta com vários esquemas que vivem presos às tetas do Tesouro - sem esquecer os assaltantes dos cofres públicos. A discussão não é, como se vê, entre estados "mínimo" ou "máximo", mas sobre ética, responsabilidade pública e eficiência administrativa.

Leia mais sobre esse assunto em oglobo.globo.com/opiniao

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nada a ver

Por J.R.Guzzo

Houve um tempo em que existiam coisas certas e coisas erradas. As coisas certas eram o contrario das coisas erradas, as coisas erradas o contrário das coisas certas, e ninguém precisava recorrer à Corte Internacional de Haia ou consultar comissões de ética para saber a diferença entre umas e outras. Na vida pública brasileira, ao longo dos últimos anos, surgiu uma terceira categoria: as coisas que não têm nada a ver. À primeira vista elas parecem tão erradas quanto o pecado original, mas, depois que recebem o carimbo de "nada a ver", passam a desfrutar de absolvição automática e integral. Transformam-se imediatamente em atos corretos, ou pelo menos neutros: o que não se admite, em nenhuma hipótese, é que possam estar errados. Esse tipo de pirueta faz um sucesso cada vez maior no mundo oficial, sempre que alguém tem de explicar uma situação enjoada. O resultado é que o Brasil, hoje em dia, é o país do nada a ver. Funciona assim, por exemplo: um peixe graúdo da administração pública, desses que estão em um dos 25000 empregos para os quais as supremas autoridades da República podem nomear quem bem entenderem, tem um parente próximo (mulher, irmão, filho etc.) que é dono de alguma empresa; essa empresa, por sua vez, ganha do governo contratos para lhe vender produtos, prestar serviços ou construir obras, às vezes diretamente na área dirigida pelo alto burocrata em questão. Na época das coisas certas e erradas, algo assim era considerado quase uma piada, em matéria de erro; só os espíritos mais audaciosos, ou desesperados, teimavam algo parecido. Não mais. Hoje, quando se dá um flagrante desses, a posição oficial do governo é dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Sim, o dr. Fulano ocupa a posição tal; sim, a empresa dos seus familiares recebe dinheiro do governo, para fornecer isso ou aquilo - e daí? Sua mulher, irmão, filho etc, têm todo o direito de assinar contratos com a administração. Trata-se de empresários como quaisquer outros. Participam de licitações públicas. Proibi-los de fazer negócios com o governo seria discriminação, a fato de ganharem o contrato não tem nada a ver com o fato de que há um marido, irmão, pai etc, no governo. Caso encerrado. Ninguém mais está disposto a perder muito tempo, atualmente, montando esquemas complicados para esconder seus "malfeitos", como diria a presidente Dilma Rousseff. Basta prestar um pouco de atenção às "organizações não governamentais" que os políticos utilizam para tocar seus negócios. Nada mais simples. Um parlamentar faz aprovar pelos colegas uma emenda mandando esse ou aquele órgão do governo entregar alguns milhões de reais a uma ONG, que em troca do dinheiro recebido se encarregaria de prestar serviços ao poder público; uma das fórmulas preferidas, no momento, é dar "treinamento". Treinamento para quê, ou para quem? Tanto faz: qualquer invenção serve, pois ninguém vai treinar ninguém para nada. A única providência que realmente interessa é entregar a verba à ONG escolhida. Ela vai repassá-la a uma empresa-laranja, à qual caberia fazer o treinamento previsto na emenda; nenhuma tarefa é executada e o dinheiro some no espaço, sem deixar vestígio. Quando o fato é descoberto, o parlamentar responsável pela trapaça diz que uma coisa - a sua emenda - não tem nada a ver com a outra - o sumiço da verba. Tudo o que ele fez foi providenciar os recursos. Não lhe cabe fiscalizar sua aplicação - se no meio do caminho meteram a mão no dinheiro, o que ele tem a ver com isso? A filosofia do nada a ver tem mil e uma utilidades. Serve para permitir, por exemplo, que um grande escritório de advocacia pague diárias num hotel de luxo na ilha de Capri - isso mesmo, Capri - a um ministro do Supremo Tribunal Federal. O STF não poderia julgar causas patrocinadas pelo tal escritório? Poderia, é claro. Mas as duas coisas não têm nada a ver entre si; segundo o ministro em questão, trata-se de um "assunto pessoal". O nada a ver também serve para que grandes eminências da política nacional viajem em jatinhos de empreiteiras, banqueiros e outros magnatas - ou que recebam deles até 500000 reais para lhes fazer uma palestra. Que problema poderia haver nisso? A consciência do homem público brasileiro, hoje em dia, é algo que se satisfaz com pouco. É como o camelo: basta lhe dar aquele ramo de água e o bicho atravessa um deserto inteiro, sem reclamar de nada. No Brasil de 2011 é preciso cada vez menos para explicar que o erro não está errado. É só dizer: "Nada a ver".

Fonte: Revista Veja 28/09/2011

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O mundo se curva

J. R. Guzzo
 
Se há uma coisa que o Brasil tem de sobra hoje em dia são os títulos de mais, melhor ou maior do mundo. Temos, segundo o governo não nos deixa esquecer nem por um minuto, o maior programa de distribuição de renda do mundo — ou, pelo menos, é assim que a máquina de propaganda oficial descreve o Bolsa Família. Ela nos garante, também, que nenhum país do mundo é melhor que o Brasil no combate à fome. Os poços de petróleo brasileiros no mar são os mais fundos do mundo, e o Brasil é o país que mais ganhou Copas no futebol mundial. O Amazonas, segundo medições recentemente concluídas, é o maior rio do mundo. Somos os maiores produtores mundiais de uma porção de coisas úteis, e temos, na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. O Brasil tem mais água doce, à vista e debaixo do chão, do que qualquer outro país do planeta. A isso tudo se pode acrescentar, depois dos bem-sucedidos esforços feitos de 2003 para cá, outro primeiro lugar, não muito lembrado: o Brasil é hoje o país mais governável do mundo. Desde que o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiram o governo da República, criou-se por aqui algo chamado “governabilidade”, um sistema de administração da vida pública pelo qual quem está no governo fica 100% a favor dos políticos — ou, mais exatamente, fica a favor de tudo o que interessa ao governo, mesmo quando teriam de ficar contra. O resultado é um país fácil de governar, sem nehum dos inconvenientes que tanto atrapalham a vida das duas partes, políticos e governo, em outros países menos afortunados: oposição que se opõe, obrigação de prestar contas à oponião pública, perda de mandatos, dificuldades para fazer negócios, problemas com o Código Penal e outras chateações desse tipo. Ser “governável” é isso — e nisso o mundo todo, mais uma vez, se curva ante o Brasil. A governabilidade brasileira, na sua encarnação atual, é um legado direto do ex-presidente da República. Ele descobriu bem depressa que a maneira mais eficaz de governar o Brasil sem ser incomodado era juntar-se à massa de políticos que, com uma cara ou outra, se elegem, se reelegem e mandam há décadas na vida pública do país — e que não iriam mudar de conduta só porque Lula foi eleito presidente. Essa gente, até então, sempre foi descrita por ele como uma desgraça nacional, pior que as dez pragas do Egito — ficará registrada para sempre, por exemplo, sua definição do Congresso como um amontoado de “300 picaretas”. Mas, antes mesmo de completar seu primeiro dia na Presidência, Lula já tinha aderido de corpo e alma à massa de escroques que tantas vezes denunciara: melhor viver em paz com eles do que passar seu governo todo trombando com o sistema “que está aí”. Formou-se então a “base aliada”, que até hoje não se desfez mais, e nem parece perto de se desfazer. Do governo ela recebe apoio completo para tudo aquilo que realmente lhe interessa: furtar, receber propinas e comissões, ocupar cargos rentáveis, entre os 25 000 que o governo tem a oferecer na máquina pública, ajudar a vida de empresas de amigos, familiares e financiadores, empregar parentes, canalizar dinheiro público para suas “ONGs” e por aí afora. Em compensação, a “base” dá ao governo as mesmas coisas que recebe dele. Até hoje, salvo um ou outro contratempo, tem funcionado muito bem — quer dizer, muito bem para os interessados. Lula e o PT têm demonstrado uma lealdade impecável aos aliados, principalmente quando são pegos roubando, mesmo nos casos que o crime é filmado; até hoje não falharam nem uma vez. Os aliados retribuem exatamente na mesma moeda. Houve algum ruído, mais recentemente, no bom andando das operações feitas nos dois lados do esquema. Ministros e altos funcionários foram demitidos ou precisaram pedir as contas por envolvimento em episódios de corrupção e, por causa disso, a “base aliada” estaria “insatisfeita”, segundo deram a entender em público diversos dos seus integrantes. Ficou esquisito. Não deveriam eles, na condição de aliados do governo, aplaudir a “faxina” que a presidente Dilma Rousseff estaria fazendo? Ou teriam ficado aborrecidos por serem a favor da roubalheira, mais do que a favor do governo? Aparentemente, tudo não passou de um mal-entendido temporário — pararam as demissões e parou a choradeira. A mola que chia primeiro, como bem se sabe, é sempre a primeira a receber graxa. Foi mais uma importante vitória da governabilidade.

Fonte: Revista Veja 14/09/2011

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domingo, 11 de setembro de 2011

“Colarinhos-Sangrentos” - Bem apropriado, assassinos de mãos limpas!

Os “Colarinhos-Sangrentos”
Existem “serial killers” e existem “mass murderers”.
Assassinos em série e assassinos de massa.
E existem os corruptos que roubam o dinheiro do Estado, chamados “colarinhos-brancos”.
Serial killers são horrendas deformações dessa obra magnífica que é a mente
humana.
Quando descobertos, e presos, julgados, condenados, geralmente sabe-se a extensão de seus crimes, quantas pessoas mataram, como, onde.
Se tudo corre bem, encerram-se suas trajetórias macabras.
Ed Gein, Ted Bundy ou o Maníaco do Parque, Francisco Pereira, são exemplos.
Assassinos de massa são bombas psíquicas que explodem em raiva e loucura e
massacram inocentes – como Anders Breivik, o norueguês fascista, ou os garotos de
Columbine ou Charles Whitman, o atirador da torre de Austin.
Seus efeitos maléficos também são mensuráveis e limitados.
A terceira categoria, os “colarinhos-brancos” são uma espécie de cônjuge infiel
desta cônjuge complacente que é a sociedade.
Essa terceira categoria criminosa arma trampolinagens, falcatruas, mutretas,
golpes. Frauda, burla, desvia, suborna e é subornada. Tudo com dinheiro público.
Quando exposta, os nomes que nela se encaixam borram capas de jornais e sujam
horários nobres de rádio e televisão durante certo tempo.
Depois, brandamente, os mesmos nomes vão se reintegrando à vida nacional.
Seus “feitos” vão sendo esquecidos.
Nem buscam a sombra: voltam à vida nacional pública, alguns são mesmo eleitos ou reeleitos, outros integram ou orbitam órgãos oficiais.
Voltam com ar desafiador ou ar comovente (ou ambos) de injustiçados.
Põem a culpa na imprensa e pedem controle sobre ela.
E a sociedade, cônjuge complacente, perdoa e aceita.
Os “colarinhos-brancos” deveriam ser chamados de “colarinhos-sangrentos”.
O que fazem, sem sujar – literalmente, claro – as mãos, resulta nas mortes de dezenas, centenas, milhares, ou dezenas ou centenas ou milhares de milhares de brasileiros.
São mais que “serial killers” e “mass murderers”.
São genocidas.
Cada centavo que roubam dentro da estrutura do Estado vai resultar na falta do
remédio que dona Fulana esperará e não receberá, lá na ponta, na fila do atendimento
público, a tempo de salvar sua vida.

Fonte: ZH | 04 de setembro de 2011 | N° 16815
PAULO SANT’ANA | CYRO S. MARTINS Fº - INTERINO


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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Era Lula, a mais corrupta da história deste País!

Ao apontar desvios nos Transportes, CGU mostra que a era Lula foi a mais corrupta da história nacional
Tiro no pé – Atendendo a pedido da presidente Dilma Vana Rousseff, a Controladoria-Geral da União realizou um pente fino nas contas e contratos do Ministério dos Transportes, depois do escândalo que culminou com a demissão do então ministro Alfredo Nascimento e outras dezenas de servidores ligados à pasta. A CGU encontrou 66 irregularidades, que juntas somam R$ 658 milhões. Essa fortuna foi desviada através de aditivos contratuais acima dos percentuais permitidos por lei e projetos muito aquém das necessidades do Estado. O relatório da CGU traz em seus escaninhos três temas que merecem atenção. O primeiro deles é a necessidade de uma faxina profunda e completa na Esplanada dos Ministérios, algo que Dilma Rousseff desistiu de fazer como forma de manter minimamente intacta a chamada base aliada. Do contrário, a presidente seria obrigada a avançar com a limpeza em pastas comandadas pelo PMDB, maior partido da base de sustentação do governo. Fora isso, a assepsia palaciana acabaria atingindo os ministros Paulo Bernardo da Silva, das Comunicações, e Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil. O segundo tema a ser considerado é a situação do Partido da República, partido presidido por Alfredo Nascimento e que na partilha de cargos em troca de apoio tinha direito ao Ministério dos Transportes. Depois de o PR anunciar sua saída da base aliada, a presidente Dilma despachou a ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Relações Institucionais, para novamente atrair o PR para a base aliada. E a conversa foi iniciada com ninguém menos que Valdemar Costa Neto, deputado federal pelo PR de São Paulo e considerado como o dono da legenda. O terceiro assunto é o mais complicado na seara do Partido dos Trabalhadores. A gastança criminosa e desnecessária no Ministério dos Transportes não ocorreu em apenas oito meses do governo de Dilma Rousseff. Trata-se de algo que ocorreu durante longos anos e com a conivência do então presidente Luiz Inácio da Silva, protagonista do período mais corrupto da história política nacional. Como ninguém dentro do PT ousa questionar Lula da Silva, a sujeira da corrupção deve ser varrida para debaixo da alcatifa palaciana, como se nada tivesse ocorrido. Assim, Dilma deixará escapar a grande chance de passar para a história, como a responsável para reduzir substancialmente a corrupção no País.

Fonte: UCHO.INFO

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